A COLUNA

Hologramas

Não sou grande fã de musicais, ao menos não no estilão Broadway. Gosto das produções antigas de Hollywood, mas no teatro, na maior parte das vezes, me canso daqueles diálogos em forma de canção. Há exceções. A montagem nova-iorquina de Fela Kuti era um negócio irresistível – o corpo balançava sozinho mesmo colado nas minúsculas cadeiras aveludadas do Eugene O’Neill Theatre. Once, versão do belo filme de John Carney, foi um acerto – os prêmios Tony, uma justiça. Tudo isso para falar da indústria local. Acho realmente importante que tantos postos de trabalho tenham sido abertos, e ainda mais que se deixe de catalogar artistas performáticos em categorias estanques (categorias estanques é uma das nossas doenças culturais). Gente que canta e dança bem é uma virtude, não um defeito. É preciso porém, melhorar o que essa gente tem que falar/interpretar no palco. Nossas produções originais (as franquias das grandes produções internacionais me parecem um pouco como assistir um filme do Spielberg dublado) são mais um capítulo das velhas fragilidades estruturais de nossos roteiros (que melhoram, mas não tanto). Há muito talento performático no palco (o talento performático é o genuíno talento nacional), mas os roteiros são na maior parte das vezes precários, uma sequência de ganchos para se chegar logo à canção. Há ainda uma sensação de que tudo foi feito à toque de caixa (alguém ainda diz isso?). Se aposta tudo na performance, nos intérpretes, e quando se tem mais dinheiro, em alguma pirotecnia. Faltam personagens e estratégias narrativas para que toda aquela gente fantasiada seja mais do que um programa de covers. As pessoas gostam e se emocionam com a sessão mediúnica coletiva – atores e atrizes como efeitos holográficos de algum artista popular falecido. Mas como se sabe, as pessoas não andam lá muito exigentes. Emoções fáceis é a versão cultural das emoções turbulentas combatidas com remédios. Arte, assim como lidar com os demônios que nos habitam, é esforço contínuo.

Ode aos SEALs

O filme visto por boa parte dos terráqueos sobre a execução do Bin Laden, trouxe um termo novo ao vocabulário contemporâneo – SEALs – tropa de elite da marinha americana. Guerra ao terror fixou ainda mais o nome, num roteiro em que a caça à cabeça mais premiada do planeta dispara questões profundas sobre a ambivalência humana. Capitão Philips é mais um capítulo nesta fixação da tropa como os novos heróis da mitologia americana. O problema é que Paul Greengrass, que fez o melhor filme dos últimos dez anos, o segundo Bourne (aliás, nada me tira da cabeça que o novo Bond “bombado” é uma resposta a Bourne), derrapa ao tratar do sequestro de um comandante por piratas somalis. Greengrass joga fora uma primeira hora excelente em que a trama é montada, para se perder num final ufanista – ao estilo samba exaltação carioca. É um thriller-exaltação, nova categoria que se casa bem com a política americana pós 11 de setembro – estamos certos, mesmo quando estamos errados, é o que o refrão diz.

Bom de dica em blog é que é de graça

Bobby Womack toca hoje em SP e domingo no Rio. Para quem tem tempo, dinheiro, ou acredita de verdade que o soul vai curar o mundo, é programa imperdível.

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2 respostas para “A COLUNA

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