A COLUNA – nov, 21

Black/Negro

A pesquisa “Vidas perdidas e racismo no Brasil”, do IPEA, mostra em números o que observa-se como prática diária no país. Negros vivem pior, vivem menos, são as vítimas preferenciais da guerra civil que executa a sangre frio mais de 50 mil pessoas no Brasil a cada ano. Os dados são estarrecedores. A chance de um homem negro ser vítima de homicídio no país é 2,4 vezes maior que a de um homem não negro (em Alagoas é 17 vezes maior). Ainda no estado do clã Collor, um homem negro tem 4 anos a menos de expectativa de vida de que um não negro.

Black/Negro II

Na caravana bancada com dinheiro público que levou 70 autores do país para Frankfurt em outubro, uma das polêmicas levantadas era a de haver na comitiva apenas um negro, Paulo Lins. Criticou-se muito a febre e se esqueceu da doença. Qualquer lista de escritores terá poucos negros, assim como teria poucos advogados, médicos ou parlamentares. No país em que Joaquim Barbosa é exceção, e, ao que dizem, fruto do processo de cotas internalizado pelo ex-presidente Lula, que achava simbólico ter maior diversidade no Supremo (provavelmente, hoje não mais), a ponta da pirâmide é branca, urbana e concentrada no sudeste. É o país onde ser um homem negro em Alagoas e estar vivo é uma sorte, não um direito.

Black/Negro III

Não sou exatamente um admirador dos chamados Estudos Culturais, tão bem definidos por Harold Bloom como a Escola do Ressentimento. Analisar obras artísticas do ponto de vista de raça ou gênero, assim como a partir de teses sociológicas ou adaptações das teorias freudianas e junguianas, parece-me na maior parte das vezes um engodo, uma tentativa de usar obras como exemplos de teses preestabelecidas. Dito isso, devo dizer que a historiografia da música pop (um tema complexo, pouco e mal estudado) usa pesos diferentes para a produção de artistas brancos e negros. Afora o papel de desbravadores atribuído ao pessoal do blues e do jazz ou de Chuck Berry funcionado como um antecessor de Elvis, a partir do momento que o eixo migra para o velho mundo, para a velha Inglaterra, babau! Não discuto o talento de Beatles, Stones, Clapton, Bowie e cia. Mas não consigo não colocar no mesmo patamar nomes como Marvin Gaye, Stevie Wonder, Al Green ou Michael Jackson. Às vezes é uma questão de gosto, às vezes é uma questão de bolso. Rádios e gravadoras despejaram muito mais dinheiro em artistas que poderiam cativar a audiência preponderante – jovem, branca, afluente – do que em artistas negros. Por mais que Stax, Hi Records e principalmente a Motown tenham criado mercado e ajudado a popularizar artistas e ritmos negros, a briga sempre foi desigual. Historiador sério é o que consegue cavar além da aparência, além dos relatos oficiais ou de quem tinha recursos para estabelecer os relatos. Essa é uma história que vale a pena ser recontada.

Black/Negro IV

Uma ideia boa, no lugar errado, realizada por amadores. É a sensação que guardo da minha tentativa de assistir a Bobby Womack no Rio, no festival Back2Black. Marcado na famigerada Cidade das Artes, o show que deveria começar às 21h foi postergado até o limite do bom senso, sem maiores explicações ao público (cordato, como de costume). O constrangimento de ver Martinália passar o som na frente do público no horário marcado para o show de Womack, me fez lembrar os festivais de colégio de bairro em que me aventurava como músico na adolescência.

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