A COLUNA, Nov. 28

Uma questão de gênero

Não deixa de ser divertido revisitar a história da cultura popular por gêneros associados a cada época. Anos 1950, 60 sem westerns? Sem John Wayne? Anos 1970 sem filmes-catástrofe? Sem arranha-céus em fogo, navios que afundam e tubarões assassinos? E o que seriam os anos 1980, sem seus filmes sobre turmas de colégio, que quanto mais o tempo passa, mais se confirmam como o último respiro ingênuo num mundo que definitivamente não tem lugar para os fracos? Toda essa rocambolesca introdução para falar de “As vantagens de ser invisível” (já nas locadoras, se alguém aí ainda as frequenta, ou nos serviços de locação digital, algo que eu nunca imaginaria descrever nos anos 1980).

Uma questão de gênero II

Você pode até dizer que Stallone, Schwarzenegger e Van Damme marcaram mais a década, mas se de alguma forma o desejo mais íntimo de um artista é captar o espírito de seu tempo, caras como John Hughes com seus filmes com Molly Ringwald como protagonista, como “Clube dos cinco”, ou o espetacular “Curtindo a vida adoidado”, e Joel Schumacher (que se perdeu em alguma curva dos anos 1990) e seu “O último ano do resto das nossas vidas” (sobre um grupo de gente um pouco mais velha), registraram com mais acerto o que acontecia naquela época estranha.

Uma questão de gênero III

Se é verdade que a ideia de juventude, como marca e mercado, nasce em meados dos anos 1950, e toma corpo nos anos 1960, os anos 1980 são definitivamente a sedimentação no campo cultural da adolescência como uma faixa etária demandante, consumidora voraz da indústria cultural (gibis, filmes, música). Dá para explicar ao menos nos Estados Unidos, com a ascensão dos filhos dos baby boomers, que herdaram conforto e mesadas polpudas para gastar com produtos feitos especialmente para eles. Mas me parece que o processo é mais denso. Estava ali, não só nas roupas coloridas e cortes de cabelo diferentes, o cerne do que explode diante dos nossos olhos: o acaso do mundo adulto, um mundo de que pouca gente hoje parece querer fazer parte.

Uma questão de gênero IV

Falei, falei, mas não falei do filme. Não há nada ali que não faça parte do cardápio dos originais dos anos 1980: adolescentes problemáticos, turmas de amigos criativos, brigas com o pessoal do esporte, tudo isso e muita música boa (os anos 1980 são um imenso videoclipe, alguém sabe o que é um videoclipe?). O ponto central é que os personagens (o filme é baseado no livro do diretor Stephen Chbosky, qualquer semelhança biográfica não é mera coincidência) são bons, um degrau acima de seus modelos originais, que muitas vezes se assemelhavam a outro tipo clássico dos anos 1980, o punk de boutique. E em tempos em que Sandra Bullock está cotada ao Oscar, é um alento ver um trio de jovens protagonistas tão talentoso movendo-se ao som de David Bowie (que cabe em qualquer década).

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