A COLUNA – MASP, dentro e fora

MASP/ Fora

O debate aceso nas últimas semanas sobre o vão livre do MASP é um bom exemplo das tensões que movimentam o país atualmente. Tomado de barracas de sem-teto e da caravana migratória dos zumbis da cracolândia, o espaço projetado como um respiro visual em meio ao paredão de concreto da avenida Paulista, tornou-se um painel vivo dos recalques da nossa sociedade.

MASP/ Fora II

Atônito, o poder público mantém-se vacilante. De um lado, sofre pressão da diretoria do museu para cercar a área, ou lê em “O Estado de S. Paulo” editorial que clama por uma intervenção contundente da força policial. De outro lado, urbanistas tentam manter viva a ideia original de Lina Bo Bardi – pensar o espaço como um campo de integração, e não de exclusão, dentro da metrópole.

MASP/ Fora III

Estive no museu duas vezes nos últimos dias, para observar com os próprios olhos a situação. Primeiro é interessante observar que boa parte dos ocupantes do vão livre hoje fazem parte da mesma população que há meses vive sob o entroncamento de viadutos que ligam a Paulista e a Doutor Arnaldo. A diferença agora é ter se tornado visível, e por consequência incômoda. Segundo, é importante lembrar que o consumo de drogas naquele espaço não é novidade, há anos suas muretas são ponto de venda e consumo. O dado novo, além do volume dessa população que povoa aquele espaço, são as barracas, que nos tempos atuais, em que arte tem mais a ver com quem legitima do que com quem faz, poderiam ser vendidas como uma instalação.

MASP/ Fora IV

Cercar o vão livre com grades é assumir a incompetência do Estado. É abrir mão de um espaço conquistado por sua incapacidade de organizá-lo. A população que o ocupa deveria ser encarada como o aviso incômodo de que não é mais possível dar às costas a demandas prementes da cidade. São Paulo precisa de uma política de saúde para lidar com o horror do crack, precisa estancar a relação promíscua com incorporadores, e re-ordernar seu imenso território de modo a oferecer moradia decente a quem vive acampado. Cassetetes, tapumes e grades são vão aumentar tensões já insuportáveis.

MASP/ Dentro

No lugar de sugerir repressão policial ou o cerco ao vão livre (a ideia de cerco sempre me faz pensar em morte), a diretoria do MASP deveria cuidar melhor de seus programas artísticos. “Lucian Freud- corpos e rostos”, mostra sobre o pintor inglês é, sendo polido, um engodo. Uma cidade como São Paulo (ou ao menos com suas aspirações), um museu como o MASP (ou ao menos o que ele deveria pretender ser) não deveriam ser o lugar para expor parte absolutamente periférica de um artista absolutamente central como Freud. Aqui você tem uma ideia do que encontra no MASP (majoritariamente formada por desenhos), e o que veria na mostra em cartaz em Viena, baseada em seu produção pictórica.

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