A coluna – O Pelé dinamarquês e a vida na tela em “Azul é a cor mais quente”

A escala humana

“O nosso Pelé é Jan Gehl”. Foi o que me disse um garçom dinamarquês em Copenhague, em julho. Nessa relação metonímica comum para estabelecer contato com estrangeiros, um urbanista simboliza as projeções sobre o povo nórdico. Não deixa de ser interessante. Gehl foi o homem que transformou Copenhague numa cidade-modelo, um parâmetro sobre as inúmeras possibilidades de re-invenção das metrópoles.

A escala humana II

No último Festival do Rio, tive a oportunidade de assistir a “The human scale”, instigante documentário sobre os projetos do escritório de Gehl mundo afora. Da transformação de Times Square, de uma via pesada de tráfego para um bolsão de convivência no coração de Nova York, à reconstrução de Cristchurch, na Nova Zelândia, totalmente dizimada por um terremoto. Das impressionantes imagens de Daca, em Bangladesh, às metrópoles chinesas. O que se vê é a possibilidade de intervenção em espaços públicos que parecem definitivamente degradados. Se há uma lição que permeia cada um desses projetos é a certeza de que cidades, independente de sua escala, são como os homens – podem ser reinventadas.

Vida na tela

Se o cinema ganhou muito com as novas tecnologias, extraindo registros visuais inimagináveis a cineastas de décadas passadas, perdeu-se nesse processo algo de genuinamente artístico. Buñuel dizia que quando as luzes da sala de projeção se apaga, o que se vê na tela tem (ou poderia ter) a potência do inconsciente, das possibilidades infinitas dos sonhos. É muito raro hoje viver esse tipo de experiência. Por um lado, a arte, ao que tudo indica, não consegue mais produzir os efeitos de outrora numa audiência cada vez mais dessensibilizada, de outro, realizadores dificilmente consegue romper com os padrões estéticos que orientam os gostos de produtores e em último caso, do público atual.

Vida na tela II

O maior mérito de “Azul é a cor mais quente” está nessa rara imbricação. Monsieur Kechiche conseguiu extrair de seus atores, e em especial, de Adèle Exarchopoulos, estratos de vida. O que se vê na tela, é muito mais que um roteiro ensaiado e registrado por câmeras e iluminação. São momentos reais, em que a representação se mistura com o ato. Adèle, a personagem, é feita de corpo e emoções reais por demais de sua intérprete. Um método que de tão exaustivo e brilhante, talvez ajude a explicar as reações de amor e ódio das atrizes principais pelo resultado exibido na tela. A potência da arte surpreende seus próprios criadores.

 

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