Comentário que não coube no Instagram

Eu os observava. Abraçados. Beijos acalorados em meio à rodoviária lotada. A segunda-feira nascendo lentamente: remelas, bocejos, os dois lá em seu universo paralelo.

Ela, com uma imensa mochila nas costas, um palmo mais alta que ele, prestes a partir. Ele mais parecia um garoto, metido em bermudas e camisetas, uma impressão que seu rosto logo desmentia. Sua pele era branca e imberbe, cheia de sulcos que pareciam cerzidos pelo tempo ou pelos acontecimentos.

O ônibus também tinha suas vontades, e diferente dos homens, uma rota que a cumprir sem desvios. Era o seu destino romper laços, apartar afetos. Assim tinha de ser e foi. Dançaram sua dança silenciosa uma última vez e ela passou a roleta.

Em pouco tempo já estava instalada, o rosto colado à janela. Acenava com graça, com a ponta dos dedos soltos tocando o vidro. Ele acenava de volta, sem jeito, com o punho rígido, mas era pouco para ele. Conversou com o fiscal da roleta. Nem era preciso ouvir o que dizia. O fiscal sorriu, mas nada feito. Voltou a acenar. Faziam então sinais incompreensíveis aos que, como eu, acompanhavam sua encenação. Um código próprio, pensei, a que eu não tinha acesso, mas logo seus passos largos e ritmados me distraíram. Seguiu em direção a uma nova roleta, que até então todos parecíamos desconhecer. Um riso nervoso tomou-lhe a boca depois da segunda negativa.

Por um tempo pareceu desistir, abrindo espaço para os meus desejos. Minutos depois eu estava de volta com biscoitos e água para a longa viagem. O ônibus deles ainda estava lá, os retardatários a embarcar; do meu nem sinal. Nenhum sinal dele também, observei, pensando que enfim desistira. Saquei a câmera da mochila e revi as últimas imagens no visor. Centenas de registros que bem poderiam nunca ter sido feitos. Apontei para a plataforma, para o pátio que ocupava os fundos da estação, como se pudesse naquele instante derradeiro captar algo que atendesse às minhas expectativas, mas tudo que a lente filtrava era uma matilha de cães macérrimos e um grupo de motoristas descansando em bancos de compensado. Nenhum deles me interessou. Ampliei o zoom em busca de um detalhe que escapasse ao olho humano, que escapasse aos meus preconceitos. Mas nada era capaz de me surpreender. Meus dedos já diminuíam a aproximação, e eu estava prestes a devolver a máquina à mochila, quando vi um corpo se esgueirando, ao lado dos motoristas entediados, escapando por uma fenda minúscula. Era ele. Seu tronco parecia ter encolhido, como se no tempo em que desaparecera tivesse sido guardado numa caixa. Espremia-se entre dois portões, se arrastando em gatinhas. Vencida aquela barreira, que deveria servir apenas para conter os cães, ziguezagueou entre os ônibus até se aproximar do destino que eu, que todos, antevíamos. Não precisava mais da câmera para vê-lo logo ali, sorrindo para o motorista que controlava o embarque, sussurrando alguma coisa e seguindo para as entranhas do veículo.

A cabine mal iluminada só me permitia ver os vultos. Dois corpos abraçados vivendo sua impossível epifania. Ainda me sinto feliz por não fotografá-los.

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