A coluna – O que há entre o Rio e São Paulo

Estou há oito anos na ponte-aérea (mais uma expressão que uma prática, a Dutra está longe de ser uma desconhecida) e ainda me pergunto se saberia estabelecer a diferença entre as duas cidades. Estabelecer diferenças sem repetir os estereótipos, é claro. Afinal, cariocas, paulistanos, são apenas mais um dos rótulos com que gostamos de nos diferenciar.

Há sempre o que bate nos olhos de imediato, algo que qualquer turista de passagem, com um mínimo de interesse, pode notar. A arrebatadora natureza do Rio, é em alguns espaços, como o Aterro ou o Jardim Botânico, acompanhada pelo melhor que o urbanismo nacional foi capaz de criar. É difícil ver algo assim em São Paulo, cidade que foi loteada desde sua explosão demográfica nos anos 1960 aos incorporadores. Os mesmos que inventaram o Rio que avança pela Barra.

Há coisas mais sutis, como a educação formal e a postura da elite. Sem nenhum dado estatístico, baseado apenas na observação interessada, posso dizer que na média o carioca constrói e articula a linguagem de forma mais rica, e que sua elite (elite de verdade, não classe média abastada que parece se equivaler no mundo inteiro) é menos ostentadora que a paulistana (Eike Batista e seus filhos que me desmintam).

São Paulo é sempre a cidade que nunca está onde a procuramos. Sua escala não é humana, é em seus guetos, escritórios e apartamentos que se produz sua energia, sua vibração transformadora. O problema de São Paulo é que, parafraseando Tom Jobim, ela não é para principiantes. É preciso sempre caminhar pela beirada, de preferência à sombra (a cidade é sempre melhor quando cai o sol), e para se atingir seu centro nervoso, sua convulsão nada generosa, é preciso não ser óbvio. Quem é capaz de não ser óbvio hoje em dia, de verdade?

No Rio o óbvio é sempre mais explícito: no padrão do silicone ao samba/funk da estação. A extroversão é um passaporte, quem não se comunica se trumbica, como diria Chacrinha. Não se preza muito as regras. Qualquer regra. O Estado é mais que mal necessário, é um mal a ser evitado. O mesmo Estado que banca boa parte de seus moradores. A gíria que mais ouço é bandalha. A primeira que meus amigos irlandeses aprenderam. Às vezes penso que tanto risco e fúria são sintomas da culpa de conviver diariamente com tamanha beleza.

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