A Coluna – O superhomem urbano

No último sábado, saí para almoçar com minha mulher num restaurante perto de casa, em São Paulo. O sol estava pesado e as ruas pacatas – era aniversário da cidade, e boa parte do comércio não havia aberto as portas. Caminhamos duas quadras bucólicas, com direito a som de pássaros, um tipo de passeio cada vez mais raro na cidade. Mas esse idílio urbano durou pouco. O silêncio aos poucos foi sendo invadido pela aceleração exagerada de um motor. E em poucos segundos nossa vida estaria por um fio. Já sobre a faixa de pedestre, a poucos metros do restaurante, o que era som se transformou em imagem – uma picape vermelha se aproximando do cruzamento numa velocidade exagerada. O que seria um susto se tornou pesadelo quando o carro, que seguia pela transversal, numa manobra insana avançou sobre nós. Freou a centímetros. Por reflexo saltei para a calçada arrastando minha mulher pelo braço. Os frequentadores do restaurante silenciaram, o ar parou, o canto dos pássaros desapareceu (nossos sentidos teriam se apagado se a pancada se concretizasse). Tudo que consegui fazer foi olhar para o motorista, que nos olhou num tom desafiador e seguiu acelerando.

“Não consegui reagir”, disse minha mulher, entre consternada e surpresa, “fiquei paralisada”. “Não havia como reagir”, respondi, “não há como se antecipar ao inesperado”.

Minutos depois, percebi que o que havia se não nos salvado, mas nos arrancado do ponto de colisão, fora o meu reflexo. Não havia um pingo de consciência nisso. Simplesmente em algum momento minha audição foi capturada pelo som do motor se aproximando, o que de certo modo me deixou atento ao carro que cruzaria por nós segundos depois.

É esse tipo de superpoder, sobre o qual não temos controle, que se espera do habitante das nossas metrópoles. É o que faz o motorista acelerar na Linha Amarela para ultrapassar o caminhão prestes a derrubar o viaduto.

O esgotamento, o cansaço absurdo que nos toma quando retomamos para a casa, é fruto, em boa medida, dessa energia gasta para se manter vivo. Não para vencer uma doença ou um desafio físico excruciante. Energia para enfrentar a barbárie sem nome, rosto ou identidade que nos cerca com suas garras.

Dias melhores não virão.

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