A Coluna – O Nobel: Szymborska, Le Clézio e Munro

Apesar de seu crescente viés político e polêmicas como uma tendenciosa rejeição a autores norte-americanos, não há como negar o considerável grau de acerto dos membros da Academia Sueca quando tratam de literatura.

Esse é um dos talentos da instituição, que soube atravessar como poucas o século passado, mantendo sua reputação intacta nos dias atuais.

Sua chancela altera o destino de autores e o caixa das editoras, e para nós, leitores das zonas periféricas, é o mais potente motor que nos leva a autores inéditos ou há muito esquecidos no país.

Três autores são bons exemplos do que trato: Wisława Szymborska, Jean-Marie Le Clézio e Alice Munro.

Os versos deliciosos de Szymborska, Nobel em 1996, ficaram décadas distantes de nós. Compulsivos como eu caçavam em coleções em inglês, mas nada como encontrar uma grande poeta na livraria mais próxima de casa. O prêmio, é claro, potencializou o interesse, mas no caso da polonesa, foi a dedicação da tradutora, Regina Przybycien, que nos possibilitou acessar seus poemas magníficos.

Le Clézio é um caso mais peculiar. Dono de uma obra gigantesca, assim que sua premiação foi anunciada em 2008, os editores brasileiros saíram à caça de seus agentes, e seus títulos já disponíveis voltaram a circular. Hoje, seus volumes estão distribuídos em várias casas editoriais, o que de certa forma diminui o impacto de sua obra, alguns lançados de forma um tanto atabalhoada. É uma pena. Le Clézio é um prosador magnífico e obras como “A quarentena” e “História do pé e outras fantasias” grudam na memória de forma indelével.

Já a história de Alice Munro é a mais interessante. A canadense laureada no ano passado há anos era favorita à premiação. Suas edições já estavam por aqui, mas assim como Szymborska, sofriam com a dificuldade dos editores locais em convencer nossos leitores de que poemas e contos podem ser experiências tão ou mais magníficas que romances. O que vemos agora, desde que enfim Munro foi premiada, é uma corrida ao pote de ouro entre os editores. Sorte nossa. É impossível ler Munro e não querer mais. Cada uma de suas histórias consegue arrancar da vida cotidiana reflexões que rasgam a capa ilusória da realidade.

Em julho estive em Estocolmo. A cidade em que pontes ligam pequenas ilhas é de uma beleza gritante. Em sua parte mais antiga, Gamla Stan, o museu do Nobel fica numa praça gostosa, rodeada de restaurantes. Num dia de sol, parei num deles para comer alguma coisa, contemplando da varanda onde havia me sentado o ar imponente do prédio da antiga Bolsa de Valores que abriga a instituição. A ideia original era visitá-lo, mas contemplá-lo, naquele começo de tarde ensolarado, me pareceu o suficiente. Como nos livros, boa parte do que mais desejamos só se potencializa em nossas própria fantasias. Se podemos optar em mantê-las intactas, por que compará-las à frágil consistência do mundo físico?

Anúncios

2 respostas para “A Coluna – O Nobel: Szymborska, Le Clézio e Munro

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: