O viajante consumidor

Perto de um milhão de turistas brasileiros visitaram Nova York no ano passado. Há aí muita demanda reprimida. Muita gente que nos últimos anos percebeu que passar uma semana perto de Times Square cabia no orçamento (ou pelo menos nas fantasias sobre o próprio dinheiro), e era mais barato que viajar pelo Brasil.

A agenda deste turista divide-se na fruição da cidade e uma missão nada secreta acordada com familiares e amigos: comprar. Não é para menos. Se há algo que se espalha como uma epidemia são as dicas de barganhas. E barganhas (bargains, como dizem os cartazes na cidade) é a especialidade do comércio americano. Barganhas de verdade é bom que se diga, e não remanejamentos de preços sutilmente retirados no final de janeiro, como se vê nos nossos shoppings.

Comprar é o verbo do turista nacional. O footing consumista sua prática. Compra-se para o ano inteiro. No caso das crianças, calçados e vestuário para várias temporadas. Estoca-se, como panças de ursos antes do inverno. Compra-se sem culpa. Compra-se com justificativa. Compra-se porque os preços no Brasil são uma piada.

Paulo Bowles, o músico e escritor americano, cunhou uma definição sobre a diferença entre o turista e o viajante. Para Bowles, o viajante é aquele que se abre à diversidade do lugar visitado, já o turista se mantém ligado ao local de origem, mesmo longe de casa. Fala-se aqui de hábitos, práticas e modos de agir e pensar, que parecem cada vez mais achatados, sem nuances, o mais bem acabado projeto de homogeneização da humanidade.

A euforia das compras compulsivas é o modo contemporâneo de nunca ser um viajante. O modo de nunca se desligar do futuro – do usufruto dos produtos que enchem as malas. Viajar, que deveria instigar sentidos e preencher de cenários a tela da memória, torna-se o depositário de versões de escadas rolantes, caixas registradoras e trocadores de roupa.

No Arte de andar por aí sem portar um celular, um poema sobre o fetiche de viajar:

Domar a mente

Controlar a mente é como domar

Um elefante depois de várias biritas

Domar um elefante cercado de ratos

depois de várias biritas

Cercado de ratos numa festa de gala dos ratos

Trajado à caráter num smoking de gato

De Manda-chuva e Batatinha numa festa de gala

Controlar a mente não tem nada de festa

É como uma festa, mas depois da festa

É quando se recolhe as garrafas e os pratos

Domar a mente é controlar os pratos

Empilhar os pratos, sofrendo delirium tremilis

Um safári se você quer voltar aos elefantes

Domar a mente é participar de um safári com dentes de marfim

É ter dentes de marfim em Mysore

Não há mais lugar para dentes de marfim em Mysore

Em Mysore os elefantes cambaleiam nas ruas

Bebem nos bares, dão cabeçadas nos automóveis

Em Mysore controlar a mente é dar cabeçadas

É dar cabeçadas pra receber dardos como presente

Dardos pra baixar a euforia pra baixar o ímpeto

Controlar a mente é esperar alguém baixar seu ímpeto

Os elefantes já usam essa receita

Você não precisa viajar até a Índia para descobrir isso

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