O verão dos melancólicos

Minha primeira lembrança do Rio é chuvosa. Passei um feriado na cidade em 1980, sem sol,  apenas um bloco acinzentado pairando sobre a orla, ofertando pancadas nada cordiais. A Barra naquela época não era nada. Meu pai nos levou para conhecê-la como uma pequena aventura a um enclave quase selvagem. É essa cidade que tento reencontrar desde que me mudei pra cá, em definitivo, há três anos. Um Rio que chove, o equivalente na natureza a meu espírito melancólico.

O verão deste ano não ajudou muito aos que possui esse tipo de temperamento. Seco e tenso, houve dias em que o ar parecia ter sido cozinhado antes que nós pudéssemos tragá-lo. Não que isso tenha afetado às fantasias que gente do mundo inteiro vem realizar na cidade. Talvez a única fantasia que tenha sofrido abalos seja as que trago comigo desde 1980.

Esse Rio dos melancólicos é, de certa forma, o Rio escrito na cultura a partir dos anos 1950. Tem a ver, é claro, com o imaginário coletivo alimentado pela bossa nova e que tão bem foi registrado por Ruy Castro. Esse não é um Rio eufórico, como o de nosso dias. A euforia cada vez mais me parece a catarse da nossa doença coletiva. Aquele Rio não compartilha desses sintomas. É um Rio que é. Sempre no presente, contemplando o que se passa, não se perdendo em fantasias sobre o futuro. Não havia promessas, mas fatos. As canções e os personagens e partes da cidade ali representados. A canção não dava vazão a escapismos. A canção era concreta como uma bússola, um arco.

Cony

Depois das lembranças dos anos 1980, minha melhor memória do Rio são os romances de Carlos Heitor Cony. O Rio urbano de “Pilatos”, ambientado no Centro tão belo quanto caótico. O Rio do subúrbio de “Quase memória”. Há ainda “Antes, o verão”, pérola de sua fase existencialista. Lá não há o Rio, mas Cabo Frio. A cidade na Região dos Lagos, ainda selvagem, refém de ventos intensos que arrastavam suas areias brancas. É ainda aquela natureza exuberante, que o contemplador atento observa e com ela se deslumbra, o refúgio aos verões escaldantes.

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