A COLUNA – Este corpo não lhe pertence

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O estudo do IPEA divulgado ontem, em que, entre diversas respostas, quase 60% dos entrevistados dizem que o comportamento feminino influencia estupros, ou 65% consideram natural que mulheres sejam atacadas quando usam determinados trajes, é mais um indicativo do modo como nossa sociedade se relaciona com o corpo.

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Não é tarefa fácil dar conta dessas tensões.

Essas são profundas, e se espalham por meio de nossa raiz histórica, do modo como se constituiu nossa sociedade, na fantasia de que constituímos um estado laico.

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É bom sempre lembrar que a invenção da América é primordialmente, antes mesmo de todos os saques cometidos, a dominação do corpo alheio (o saque do corpo) por meio da força. Ninguém demonstrou isso de forma mais clara do que Todorov no excepcional “A conquista da América”. Os antigos donos desse amplo território ou se dobravam, oferecendo o corpo como instrumento de trabalho para seus dominadores, ou eram simplesmente extintos – extinção maciça, corpos sem valor, sem alma.

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Essa dinâmica se mantém praticamente intacta entre nós contemporâneos. Sai a espada, entra a arma de fogo, o automóvel. Seguimos contando aos milhares as vítimas. Todas, sem exceção, filhas de um antigo mecanismo – o corpo não faz parte do domínio subjetivo, instrumento físico, concreto, modo de se colocar no mundo, exercício máximo da liberdade individual. É refém de uma chave inversa: inscreve-se ainda na dinâmica de trocas. É monetizado. Circula como capital produtivo, que pode ser manejado, delimitado, excluído. Um processo que se espraia no campo social, escorrendo nas franjas doentias de seu tecido. Em última análise, aceita-se que o corpo pertença a quem pague ou ameace mais – seja com holerite, arma em punho ou obrigação marital. A posse do corpo é constantemente transferida para uso alheio. É como se o habitássemos, mas nunca tivéssemos direito ao habite-se.

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O estupro é a parte perversa dessa história. O controle do corpo, mantido, contra à vontade, entre a ameaça de extinção e a humilhação bárbara. É sempre covarde (a covardia é o caráter fundador da América, o flanco amoral que se abre quando se detêm a supremacia, o domínio da força). A aceitação moral dessa violência, a ideia subjacente, abjeta, de se tratar de um acordo tácito entre vítima (que provoca) e agressor (que não pode/quer controlar seus impulsos) é o rombo profundo na teia social por onde a barbárie se perpetua.

 

 

 

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