Vivendo na varanda

De volta ao país, ao blog, voltando a andar por aí, a observar nossas metrópoles, insistindo em caminhar, dando passagem para os automóveis, para as bicicletas desgovernadas, para os tecladores compulsivo de celulares. De volta, tentando se manter em pé nas calçadas, caminhando com pernas ligeiras e a mente que nunca quer estar aqui sempre à procura de uma aventura passada ou futura.

Caminho por São Paulo, neste abril fresco e ventoso. Saia agasalhado – minha mãe repete no ponto que um dia ela implantou no meu cérebro. Mas às vezes abro os botões da camisa, e respiro mais fundo, só para lembrar que os trópicos não são só travessuras.

As novidades em São Paulo neste dias (novidades para mim, obviamente) estão todas na brochura luxuosa que o corretor de imóveis me entrega na saída de um café. Ele se veste como um executivo, e me trata de senhor. Entrega-me seu cartão e um livreto com cheiro de gráfica, antes mesmo que eu pudesse balbuciar que não ando procurando imóveis. Entre entupir as cansadas lixeiras do bairro, e gastar alguns minutos destrinchando aquele material, resolvo tomar mais um café (desde que voltei do Japão espressos mantêm ao menos um dos meus olhos aberto). E então sou surpreendido pelas novidades.

A primeira (a ordem é aleatória) é que os apartamentos encolheram. Antes que você reclame dizendo que isso não é novidade, eu me explico. Não se trata da mera diminuição das metragens, é algo mais drástico. A ideia de um apartamento como um dia foi concebida não existe mais. O apartamento como uma tentativa de reproduzir as áreas essenciais das antigas casas acabou, e por um motivo simples – as áreas essenciais das casas atuais não são mais privadas, mas sociais. É como se a dimensão pública, a exposição frenética dos nossos dias, não permitisse sequer que se tenha um mísero espaço de privacidade. Nas plantas que folheio enquanto me encharco de cafeína, a área principal é ocupada pela varanda, cada vez mais transformada numa sala de refeições (o nome comercial é varanda gourmet), isso numa cidade em que pouquíssimas famílias se juntam nas refeições. Trata-se sobretudo de um espaço para receber convidados (essa é a ideia implícita). O canto onde o admirador de “Top Chef” ou “Hell’s Kitchen” apresenta suas invenções para um plateia selecionada. Outro diferencial (outro clichê) é a transferência dos antigos salões de festa do térreo para o último andar do edifício, onde o pizzaiolo-morador pode assar redondas no forno instalado enquanto seus amigos contemplam a vista da cidade (?!). Dimensão pública, sempre. Na esvaziada vida privada, em dois dormitórios de 60 m2 em que a varanda impera, esqueça seus livros (se você ainda os possuir eles provavelmente irão para o depósito da garagem, solução já ouvida de uma corretora). Venda o velho e bom sofá da família onde você se refestelava nos sábados à tarde, e, quando pensar em abraçar o ser amado que dorme ao seu lado, cuidado para não socar a parede, o que pode ocasionar uma terrível interrupção no papo animado dos amigos que ainda comem na sua varanda.

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2 respostas para “Vivendo na varanda

  • Marcia Réa

    Godoy, acabo de escolher minha próxima morada que ficarei por mais um tempo de contrato. É uma casa antiga, com uma cozinha de azulejos cor de rosa, dessas que se reúne a família para comer comida caseira, nada requintada ou sofisticada, que cabe uma mesa de 6 lugares e sobra espaço! Estou num bairro onde o morador mais novo tem 237 anos e viveu a vida toda ali. Não há prédios tirando minha privacidade do banho pelada no quintal que tem espaço de terra para minha horta! Na sala, mantenho a janela aberta por duas “borboletas” nas laterais! No extenso corredor, a parede inteira de livros com cheiro de páginas de historias (os livro são meus, não vieram com a casa)! O contador de energia elétrica na frente da casa está datado em 1895. É querido, não se acha mais isso com facilidade…
    Beijinho…
    Marcia

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