Japão

Japão

Barthes, em seu livro-tributo ao Japão, “O império dos signos”, descreve que “a massa rumorosa de uma língua desconhecida constitui uma proteção deliciosa, que envolve o estrangeiro (desde que o país não lhe seja hostil) numa película sonora”. Como nem mesmo por um instante a sombra da hostilidade pairou sobre os meus dias no Japão, só posso dizer que, protegido por essa película das pequenas conversações diárias, só me restou percorrer o Japão como uma criança ávida em decifrar o mundo.
Viajar ao Japão é ser confrontado a todo momento por nossos pré-conceitos. A todo momento desejamos verbalizar, com explicações adquiridas ao longo da vida, o que vemos, sentimos. Se o Brasil não foi feito para principiantes, como dizia Tom Jobim, o Japão não foi feito para quem viaja para confirmar seus próprios equívocos.
É um esforço, algo que vai contra a tendência do turismo massificado, com sua estratégia de check-list.
Tóquio, por exemplo, é cidade imune a listas. Sim, você pode visitar o mercado de peixes em Tsukiji, ou comer num dos grandes restaurante de sushi. Pode visitar o Edo-Tóquio Museu ou o parque Ueno atrás de suas cerejeiras (uma sorte deste viajante). Você pode fazer tudo isso, mas Tóquio, sorrateiramente, irá lhe escapar.
Primeiro, como bem aponta Barthes, porque a cidade não tem centro. Este lugar cabe ao Palácio Imperial, uma parque imenso, repleto de água, vegetação, com boa parte de sua área fechada a visitação. Segundo, pois se o Centro é difuso, o que dirá o delírio espacial de uma cidade escalonada em camadas? A cidade que existe sob seus arranha-céus, onde trens e restaurantes se cruzam. A cidade das estações multiplataforma (trens locais, para o subúrbio, metrô), onde coexistem restaurantes excepcionais com bimbocas de lámen a 5 dólares, sem contar boulangeries que fariam um parisiense salivar.
Tóquio é a cidade onde achar um endereço mais se assemelha a completar um Lego monumental: você sempre tem um mapa à mão, um nome anotado, o primeiro dia do novo aluno repleto de lembretes maternais.
Assim eu me sentia a cada dia, uma versão grisalha e calva do menino que um dia fui. Acho que por isso comi tantos doces e frequentei tantos templos em busca de uma centelha do sentido da vida.

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2 respostas para “Japão

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