A coluna – Rushdie em São Paulo

Na terça, a FLIP anunciou a programação da edição deste ano. Comentei no Clube do Livro a diversidade das escolhas, a meu ver um tanto quanto exagerada, unindo no mesmo evento homenagens a Millôr, especialistas na questão indígena, urbanistas, um bom time de jornalistas com obras polêmicas sobre questões que vão dos monitoramentos americanos ao vício em drogas, e jovens promessas da ficção. Ufa!

Nada contra a diversidade, viva a diversidade!, mas eventos, assim como obras literárias, necessitam de um centro temático que fundamente a exploração intelectual.

É o que fez Salman Rushdie em sua conferência ontem à noite em São Paulo, abrindo a edição 2014 do Fronteiras do Pensamento, que segue com sua programação ao longo do ano.

O que chama mais atenção em ficcionistas como Rushdie, que circulam globalmente, com leitores em dezenas de mercados e uma rica agenda de eventos, é o extremo profissionalismo. Parece óbvio, mas não é. No Brasil, onde eventos inspirados na FLIP pululam por toda parte, é recorrente a falta de preparo de autores e mediadores. O que deveria ser expressão concatenada, com raríssimas exceções quase sempre acaba por derivar para a tradicional informalidade do bate-papo.

Nada contra bate-papos, às vezes uma boa conversa revela mais do que eventos formais, mas a minha dúvida é se esse eterno ar de improviso que marca nossos eventos não é apenas um disfarce para nossa dificuldade em encadear raciocínios e comunicá-los para uma audiência. Uma carência que milhares de alunos percebem país afora, manifestada nestes eventos que tem ou deveriam ter a função de informar e atrair leitores.

O centro da argumentação de Rushdie é a função da literatura hoje. Uma pergunta que dez entre dez escritores se fazem diariamente. Para o autor de “Os filhos da meia noite”, a literatura é o meio mais potente de registrar a história que escapa do afã da cobertura diária da imprensa, a narrativa subterrânea que fragiliza os discursos oficiais, roendo-os por dentro por meio do relato de nossas pequenas experiências individuais que se espelham nos personagens contemporâneos.

Se para os historiadores isso é material para microhistória, para Rushdie, formado em história, do ponto de vista artístico, a matriz realista do romance ainda é um instrumento potente, apto para esta função.

É o que mantém a arte da ficção viva e atual num mundo que, embora extremamente hiperconectado, ainda depende da sensibilidade do romancista para registrar as narrativas que caminham em paralelo e interligadas às grandes manchetes dos jornais.

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