A coluna – Duas cantoras

Fiquei impressionado com o retorno dos ouvintes após tocar alguns trechos de “Por une âme souveraine”, de Meshell Ndegeocello, no último Fim de expediente. O tributo da americana de nome africano a Nina Simone não só me encantou, como aos que acompanham o programa.

Ouvi falar de Ndegeocello quando ela estreou em 1993 com seu “Plantation Lullabies”. Tremendo início de carreira, com sua mistura de funk, jazz e hip-hop. Sua voz rouca e, principalmente, seu baixo magistral, logo chamaram minha atenção (quem toca o instrumento sabe da dificuldade de executar as linhas intrincadas que Meshell constrói enquanto canta). Foi o que conferi quando ela tocou em SP, numa edição do Free Jazz, numa noite que seria encerrada por um show antológico de George Clinton. Sim, ela fazia ao vivo, na minha cara, o que estava registrado no disco, mas o show foi ruim, visivelmente ela estava injuriada com alguma coisa, talvez com o som precário do galpão da Barra Funda onde festival foi realizado.

Depois dessa época ela saiu do meu radar. Talvez Ndegeocello não se adequasse às ideias dos gênios que levaram às gravadoras para o vinagre. Mesmo com uma madrinha da pesada – ela foi o primeiro artista lançado pelo selo Maverick de Madonna – sua carreira acabou funcionando melhor no circuito jazzístico do que no mainstream do pop.

O que poderia ser um limitador é justamente uma das grandes virtudes de sua homenagem a Nina Simone. Com as mudanças que o mercado fonográfico passou nos últimos anos, artistas incríveis podem enfim circular mais livremente em projetos menores, sem a pressão dos investimentos milionários. Além de Meshell, “Por une âme” traz uma seleta da pesada de muita gente boa, pouco conhecida no Brasil, que merece atentas audições: as cantoras Lizz Wright e Valerie June, o cantor Cody ChesnuTT.

Daqui do Japão

Minha versão músico, que se perdeu em algo beco do rock nos anos 2000, era contemporânea de Skank, Pato Fu, Rappa, Planet Hemp e Nação Zumbi. É engraçado fazer o inventário desse período, cuja produção, ao contrário dos ventos favoráveis dos anos 1980, sofreu bastante para se estabelecer. Abri meia dúzia de shows dessas bandas, shows terríveis, com estrutura precária, e hoje me pergunto, ouvindo a “Na medida do impossível”, o novo cd da Fernanda Takai, como alguém tão delicado conseguiu atravessar essa espécie de prova de obstáculos que marca o começo de toda banda. Fernanda tem um talento raro e precioso de encontrar coesão em fontes e informações aparentemente imiscíveis. Faz a mágica de um hino religioso se misturar à sonoridade de western spaghetti de algumas trilhas do Morricone. Saca da cartola parcerias com gente de imenso talento como Marina Lima e Samuel Rosa, e produz algumas das melhores versões dos últimos tempos, como as de “Heal the Pain”, do George Michael, e “Mary”, de Yann Tiersen, compositor da trilha de “O fabuloso destino de Amélie Poulain”.

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3 respostas para “A coluna – Duas cantoras

  • iedaar

    Zé, sua visão crítica e amante da boa música nos mostra maravilhas miscíveis!

  • psantos

    Zé, tenho a maior paixão pela Nina Simone, ainda mais quando se consegue cantar algo que parece tão simples, uma letra que se repete, e que o resultado é lindo, cheio de sutilezas de sons. E me pergunto pq uma pessoa dessas deixa de existir…agora me vem uma certeza… A Nina nunca vai deixar de existir, com todas essas ”
    sementes” novas pelo mundo!

  • Zé Godoy

    Oi, Patrícia, a Nina era um negócio de outro mundo. Uma das cenas inesquecíveis do cinema recente é o final de “Antes do pôr-do-sol, com a Nina cantando “Just in time”…

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