Por aí

Estou desde ontem enrolando para publicar a coluna por aqui. A força das tensões sociais parece tornar qualquer divertimento frívolo. Queria falar de “Fun home”, novela gráfica de Alison Bechdel. Genial história sobre uma família disfuncional (taí um termo engraçado, o que seria uma família funcional? Gente que funciona de acordo com o manual do fabricante?). Sigo caminhando pela cidade, para esfriar a cabeça (taí uma ideia que curto, o cérebro feito um radiador). O que ainda me desnorteia no Rio é o absurdo de saber que as transversais dão no mar. Talvez seja cômico para um carioca ouvir isso, mas para quem nasceu em São Paulo, onde as transversais dão sempre numa preferencial, viver numa cidade onde o mar, o morro são referenciais é um espanto. Hoje, os referenciais em São Paulo tem nomes de cores: verde, amarelo, lilás. São os nomes das linhas de metrô. Interessante esse rasgo poético dos burocratas. Não linhas A e B, 1 e 2, mas linhas com nomes de cores (que sofisticado pensar numa linha lilás). A transversal por onde sigo me leva até uma fragata da marinha que patrulha a costa. A Copa é uma operação de guerra.

Na coluna que eu havia escrito, além do livro de Bechdel, tinha pensando em “Louie”, a série de Louis C.K. para o FX americano. São obras pares. Nesse tempo em que os produtos culturais nascem prontos e embalados para consumo, e nós, esgotados por esse tempo de tensões infindáveis, nos entregamos sem resistência, é preciso muita perseverança para encontrar algo realmente genuíno. “Louie” é bem o caso. Cômico, cruel, bizarro, às vezes ilumina o dia com uma esperança quase infantil, às vezes trava a glote pelo absurdo da existência. É difícil propor a quem experimenta diariamente o absurdo na própria pele que procure em seus momentos de recolhimento uma dose extra de incômodo. Mas – e talvez resida aí uma de nossas saídas possíveis –, será que quando nos tornamos observadores, e acompanhamos o que nos espanta representado por um grande artista, não nos sentimos mais humanos e menos abandonados à própria sorte?

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4 respostas para “Por aí

  • Teresa Piccin

    Por aí, mais humanos e abandonados a própria sorte,que medo.´´Humano,Demasiadamente Humano“.Hoje sou só uma terráquia.Visto a fantasia e tento ser um pouco feliz. Boas caminhadas.

  • patricia

    Ah Zé, o seu texto é tão próximo das dúvidas que o Woody Allen coloca em seus filmes. E fico sempre com o pensamento do poeta “…eu quase que nada não sei,mas desconfio de muita coisa”.

  • Zé Godoy

    Oi, Patricia, o Woody Allen tá tão misturado com o nosso repertório que quando vou à terapia preciso me policiar para não rir da situação!

    bjs

  • Patrícia

    Zé, eu de fato caio na gargalhada!! Eu assisti no final do ano a todos os filmes, que a locadora perto de casa, possuía do Woody. Foram 25 maravilhosos filmes…e de fato, percebi o quanto ele é pilhado com a questão do ” não basta ser o melhor na vida o que vale é ter sorte” é algo que aparece no começo, no final no meio, de vários filmes. É um exercício que quero fazer com outros diretores!

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