A guerra contra o cliché

O romancista inglês Martin Amis coligiu seus artigos críticos sobre literatura num volume chamado “The war against cliché”. O título não podia ser mais adequado. Um dos desafios mais duros para quem vive de escrever é lutar contra lugares-comuns, frases, expressões, ideias que de tão repetidas soam insuportáveis. Parece fácil, mas não é. Nossa relação como usuários da linguagem é se amparar num repertório conhecido, que nos dê a confiança necessária para expressar nossas intenções, vontades. Cada um de nós, e cada pequeno grupo humano encontra nessas repetições conforto. São aquelas velhas frases que ouvíamos em casa e que, depois de trinta anos, descobrimos que não funciona mais num mundo transformado. Ou os jargões profissionais, que diferenciam os que se dedicam a uma determinada atividade mais do que diplomas ou cargos. O cliché é nosso refúgio, que o digam as telenovelas ou o futebol. Neste mês de Copa, o cliché é o esperanto que vingou. Mesmo que você odeie futebol, ele entrará pelos seus poros, se misturará à sua respiração. Um dia, daqui a quinze anos, você vai se ouvir dizendo que na vida, como no mundo da bola, não há mais bobos, ou que nem sempre o melhor ganha. Mais material para o vocabulário que nos permite frequentar elevadores e filas de banco. Se na literatura, o cliché segrega o escritor, na vida cotidiana ele talvez seja o salvo-conduto para a vida em grupo.

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