A coluna – Várias versões do beijo

Como a mordida é o assunto da semana, resolvi falar do beijo. Sempre penso nele como a marca de uma cultura, de um lugar. Os homens latinos aqui de baixo, como os franceses, que se beijam e nós não. Estranho não? Há traços na cultura em torno do Rio Prata que mostram que não é ali que habitam os homens mais flexíveis em termos de afetos entre homens. Mas diferente de nós, esses homens não veem no beijo masculino uma questão relacionada à sexualidade. Nós sim, e mesmo o abraço entre homens amigos por aqui é muitas vezes duro, tenso, quase culpado. Uma lembrança de infância que tenho eram as partidas de futebol nos Jogos Olímpicos dos anos 1970. O pessoal do comunismo dava as cartas, estufava as redes (como não havia profissionalismo nestes países, os melhores jogadores eram utilizados, ao contrário de seus adversários capitalistas). O que eu sei é que a transmissão das partidas dos soviéticos foram com certeza o primeiro, o segundo e o quinto beijos entre homens transmitido pela tevê brasileira. E nada de selinho inocente, não. Eram beijos intensos, com direito a bochechas esmagadas entre as mãos alheias. Mesmo entre nós a coisa varia (a única coisa a não variar é a obediência dos varões). Podem ser três, dois, um, como em São Paulo, onde dizem que não há tempo para repetições. O mais engraçado é que gente que mal se conhece, ou acaba de ser apresentado, vai logo tascando beijo, sem constrangimento nenhum. Mesmo eu, um ser com códigos estritos impossíveis de serem seguidos, várias vezes me deparo com certo ar de estupefação quando ergo a mão direita em direção a alguma senhora a quem estou sendo apresentado. É quase uma desfeita. Mas nada chama mais minha atenção do que a comunicação na internet. É um mundo novo, operado muitas vezes por gente arcaica como eu. No conjunto de códigos que se impõe, e que parcamente domino, o que era papel da pontuação, aquela bela coleção de signos com que exprimíamos nossas intenções, ênfases, reflexões foi substituída por carinhas, parênteses duplicados, triplicados e saudações. Sim. Experimente enviar um e-mail sem um bjs no final, para que as dúvidas mais mirabolantes sejam despertadas, reputações rolem ladeira abaixo e até mesmo rompimentos drásticos se sucedam. É uma regra, quase de etiqueta, daquelas que aprendemos para não insultar ninguém quando viajamos para um país estrangeiro. Se ainda tiver algum tempo antes que minha alma queime para sempre no inferno virtual, gostaria de deixar registradas aqui minhas desculpas. E para dar provas da sinceridade das minhas intenções, despeço-me com um par de bjs pra vcs!

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