A COLUNA – As quentinhas do escritor

João Ubaldo era nosso maior prosador. Num país em que se lê pouco e autores consistentes são raros, conseguiu em seus melhores momentos cumprir a ambição maior de um autor – ter uma voz literária capaz de dar conta das arestas da imaginação. Viva o povo brasileiro talvez seja o exemplo mais bem acabado. Um tijolo que recolhe as vozes múltiplas que deram origem ao que somos como nação – caos, balbúrdia, sagacidade e moral vacilante. Não bastasse o romancista, Ubaldo foi também colunista dos bons. Com embocadura de escritor em seus textos jornalísticos criou uma fauna de pequenos personagens que o ajudavam a relatar nosso caos semanal. Sua última coluna em O Globo, publicada no domingo passado, após o massacre do Mineirão, era um bom exemplo. Um conhecido que imitava, com o sotaque que imaginamos ser de um alemão, o time germânico com mesuras diante da fragilidade dos donos da casa. Fora a reverência, a admiração profunda, o Ubaldo que irei carregar na memória é o habitante da cidade do Rio Janeiro. Aquele que fez de um quarteirão do Leblon sua Itaparica, do boteco Tio Sam seu posto avançado de observação, e da arte da conversa descompromissada uma prática. A imagem derradeira que fica, fresca e viva como sua literatura, é dele caminhando com uma sacola de quentinhas retornando para o seu apartamento. Foi no último sábado.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: