A Coluna – A morte de Suassuna e o estertor da cidade

O ano, ainda pela metade, já é trágico no campo literário. Dois prêmios Nobel – García Marquez e Nadine Gordimer – e dois de nossos maiores autores – Ubaldo e Suassuna – já é mais do que suficiente para a escassa cota de homens raros. Suassuna assim como Ubaldo conseguiu fazer do material nacional – no seu caso o sertão, o folclore nordestino, o cordel, o bumba-meu-boi, o teatro de bonecos de Pernambuco – a base de uma produção ampla que se espalhou por diversos gêneros. A partir desse material, tão autêntico quanto o autor, Suassuna formalizou para a cultura dos grandes centros a convicção de que a matriz mestiça, miscigenada – a mistura – que nos deu origem, deve estar no centro de qualquer projeto nacional que se possa imaginar e produzir.

A porta que fecha, a cidade que estanca

A morte da proprietária de um dos restaurantes mais queridos do Rio, no bairro da Gávea, na semana passada, deveria ser um marco simbólico do estertor de um conceito de cidade no país. A cidade dos pequenos empreendimentos, do homem que se conduz por conta própria – a pé, de bicicleta – que se permite caminhar sem rumo e descobrir pedaços da cidade que habita que passam despercebidos aos olhos tensos do motorista. Essa cidade vai se despedindo sem homenagens ou protestos. Com a iniciativa privada ocupando o espaço de organizar e facilitar áreas de convívio que caberia ao Estado; uma política econômica baseada na produção de automóveis, mesmo que as artérias das metrópoles necrosem a céu aberto; e a explosão irracional do valor dos imóveis, não há otimismo que baste para não perceber que na cidade em que passaremos nosso futuro, o flâneur estará condenado à extinção, ao exílio, ou mesmo ao hospício.

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