A Coluna – O check-up

O hipocondríaco é alguém com ideias claras e um timing equivocado. Não nego fazer parte da espécie. Nossa data jubilosa é o dia do check-up anual. Fazer check-up para o hipocondríaco é estar prestes a confirmar suas hipóteses sobre si mesmo. A fragilidade, os ruídos do corpo, os pedaços prontos para a pane. Confirmar enfim a marcha inexorável você sabe para onde. Terça foi a minha vez. Acordei cedo, e parti em jejum (o clássico do clássico do check-up, a privação alimentar), encarando o inverno siberiano de São Paulo com o corpo clamando por gorduras. Gorduras que não se pode ter. Gorduras que protegem do frio aumentam o LDL, os Triglicérides, e as ampolas de sangue que a enfermeira extrai, só virão confirmar. Ampolas e mais ampolas. Não basta manter a barriga vazia, a bexiga cheia (outro pré-requisito), é necessário ofertar doses generosas do próprio sangue como se tira água de um coco pálido. “Posso comer?” “Não antes do ultrassom”. “Posso ficar de suéter?” “Não, por favor senhor, vista o avental!”. E lá vou eu caminhando pelos corredores iluminados por uma luz branca que tonaliza com o verde alface. Sem nada no estômago, armazenando líquidos como um camelo e com baixas reservas de sangue, sigo com meu avental cinza céu-paulistano, fino como a pele de meus companheiros de vestiário. E então… E então ter o corpo besuntado por gel gelado. O corpo apalpado e o gel se espalhando como no antigo moicano do Neymar, e os sons da máquina, e as piadas infames dos médicos (uma ideia: uma placa de não perturbe para os examinados). “Posso comer?” “Ainda não. Primeiro esvazie a bexiga”. Ufa! E mais gel e piadas. Mastigo um sanduíche de queijo e tomo um suco. Nada de cafeína, nada que possa afastar o torpor. Nada que incite reações intempestivas quando os pelos do peito são depilados a seco, substituídos por eletrodos. Ou que possa atrapalhar a caminhada prazerosa num esteira conectado a mil fios. E ainda é preciso correr, tendo à frente o pôster de uma floresta de sequoias. Correr pelos bosques canadenses, entre ursos e alces. Correr, correr, enquanto a máquina apita. Run Forrest, run! Correr mais, e mais. Até escapar dos jalecos brancos.

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