Entre Junot Díaz e Carrie Bradshaw – artigo publicado em 2009, para o “Valor econômico”, por conta da edição da FLIP daquele ano

Desde 2007, o americano-dominicano Junot Díaz vem se tornando personagem frequente dos principais veículos que cobrem o mercado literário. Depois de alguns volumes de contos e textos publicados em revistas como “New Yorker” e “Paris Review”, Díaz lançou naquele ano seu primeiro romance, “A Fantástica Vida Breve de Oscar Wao”, que chega ao Brasil pela editora Record. Nerd, gorducho, louco por ficção científica, a história do imigrante dominicano Oscar Woo e sua família estabeleceu seu autor no mapa de celebridades literárias. Foi incluído pela “New Yorker” como um dos 20 principais autores do século XXI. Descrito por Michiko Kakutani, a principal crítica literária do “New York Times”, como “uma das mais diferenciadas e irresistíveis vozes da ficção contemporânea”. Vencedor, em 2008, do Pulitzer de Ficção, Díaz entrava assim, pelo andar de cima, no mercado da ficção contemporânea. Caracterizado por uma temporalidade muito própria — contrastante com os 11 anos consumidos pela escritura de “Oscar Woo” —, esse sistema se vale de azeitadas engrenagens a movimentar editoras, jornais, revistas, assessores de imprensa, festivais e prêmios literários, críticos e autores minimamente carismáticos e capazes de oferecer, com considerável assiduidade, frases espirituosas e uma paciência quase infinita em debater seus livros. Em meados de janeiro, Díaz foi um dos primeiros autores a confirmar presença na Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. Porém, no começo de março, sua agente, Nicole Aragi, informou o cancelamento de sua vinda, assim como a compromissos na Polônia e Palestina. Segundo ela, o escritor precisava descansar de uma agenda recheada de eventos. A breve descrição acima serve como parâmetro das dinâmicas que regem o campo literário, de como a produção contemporânea não mais se dissocia das ações mercadológicas que regem o mercado de bens culturais. O que soa, porém, como nota inédita nesse processo é o contraste entre a instantaneidade de tais práticas e a forma artística que circula entre os leitores — o romance. Nascido no coração da burguesia europeia há pouco mais de dois séculos, este frequentemente funcionou como um elemento crítico a esse sistema, a seus costumes e práticas, revelando ou antecipando tensões sociais. O processo de criação artística torna-se, assim, invertido em suas premissas estruturais — o objeto artístico permanece circulando menos por sua potência e mais pela própria disponibilidade do autor em oferecer algo além da própria obra. De preferência sua presença física e talentos, em princípio, não exigíveis a um escritor: carisma, capacidade de entreter, aguda capacidade oratória. O Brasil, apesar de seu acanhado mercado, rapidamente se adaptou a esse novo projeto. Repleto de especificidades, nosso modelo se antecipa à própria maturação do sistema literário — principalmente em relação à ponta do leitor, um grupo ainda incipiente no país. As ferramentas que cercam o processo logo se sedimentaram. Entre leis de incentivo cultural, uma elite cada vez mais ávida por “eventos culturais” (não especificamente por cultura), políticos hábeis em cooptar a intelligentsia local com premiações, surgiram no país prêmios do porte de um Portugal Telecom e eventos da dimensão da Flip, cuja sétima edição começa na quarta-feira. Uma bem articulada arregimentação entre a editora inglesa Liz Calder, o editor Luiz Schwarcz e a Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip) Associação Casa Azul de Paraty, apoiada por pesos pesados da iniciativa privada, fez rapidamente da festa o evento editorial mais relevante do país em termos de repercussão, espaço na mídia e atratividade a autores, editores e agentes internacionais. As casas editoriais, que anteriormente focavam seus lançamentos no fim de ano e nas bienais, quando incluídas no seleto grupo com autores escalados para o evento, passam a preparar catálogos específicos e pautam-se em Paraty para redesenhar suas estratégias. A programação de autores nacionais desta edição, de certo modo, caracteriza-se como um resumo da ópera dessas relações. Entre as 18 mesas do evento, que homenageia neste ano Manuel Bandeira, o elenco nacional traz escaladas figuras centrais de nosso cenário local. Estarão na cidade histórica: o autor mais premiado da década, Milton Hatoum; o de maior repercussão recente, Cristovão Tezza — cuja última obra, “O Filho Eterno”, amealhou a maior parte das recentes premiações, entre elas os Prêmios Jabuti e Portugal Telecom de 2008; e Chico Buarque de Holanda, que, afora todos os epítetos que possam ser ligados a seu nome, protagonizou o lançamento mais estrondoso da ficção nacional dos últimos anos — as declaradas 70 mil cópias que sua editora imprimiu de “Leite Derramado”, seu último romance. Os números, a excitação, as pautas recorrente, postos de um lado, a ambição da permanência, o desejo de perenidade no campo cultural, de outro. Esse é o enclave onde o debate se aninha. O lugar onde a persona pública do autor e sua obra se chocam. Tezza, envolto numa maratona de eventos relacionados a seu livro, lançado ainda em 2007, aponta a incômoda situação a que o autor contemporâneo que repercute se vê envolto. Como escrever? Essa é a pergunta que ressoa. Ou como o autor catarinense, após vencer o Prêmio Jabuti, declarou à “Gazeta do Povo” de Curitiba: “Eu estou trabalhando em um novo romance, mas, como estou vivendo de fama faz um ano, tenho que organizar o meu tempo para voltar a escrever mais”. Reproduz-se assim, dentro de nossa escala local, a situação que levou Díaz a abdicar de sua vinda ao Brasil para poder, simplesmente, voltar ao ofício do escritor: escrever. Em outra chave, aos autores atuais não é mais dado o direito à reclusão. Casos como os dos americanos J.D. Salinger e Thomas Pynchon, de quem não se tem sequer fotos recentes, ou, localmente, o de Rubem Fonseca, simplesmente deixam de existir por um simples motivo: autores que não circulam não vendem livros e são excluídos do sistema. A reclusão como estratégia não é mais possível. Escrever e aparecer é a questão: modo de sobrevivência. Esse é o lado árduo, e aos ficcionistas do século as alternativas não distam muito das práticas correntes nos ambientes corporativos. Talvez com um pouco mais de glamour, é verdade. Mas nada que fuja do binômio produzir e promover. Inscrito numa nova ordem de consumo, assim como os eventos de moda, os cursos de gastronomia, a enofilia ou o culto aos baristas, talvez a literatura esteja se tornado a nova vedete do verniz da maquiagem social. A quem deseja se inteirar desse cardápio de novidades, próprio aos dias correntes, o friozinho de Paraty no começo de julho oferece-se como um belo regalo. Entre calças bem cortadas, uma boa safra de Malbec ou, quem sabe, o adorável charme de um autor bem articulado, a cidade mais se assemelha a uma Lilipute de nossa elite cultural. Afinal, onde mais, além daquelas vielas de pedras irregulares, ou em seus bons restaurantes, é possível encontrar Salman Rushdie com um indefectível Panamá, que faria Bogart se arder de cobiça? Ou acompanhar o incrível talento de Christopher Hitchens em levantar e derrubar copos de destilado goela adentro? Ou, ainda, acompanhar Arnaldo Jabor almoçando vigiado por uma patrulha policial de olho em petistas enfurecidos, logo derrubados pela malemolência causada pela maresia local? Dona Michiko, há anos dando as cartas na seção de livros do “Times”, ao que consta nunca desfilou pela cidade. Mas não deixa de ser divertido, provavelmente mais do que suas descrições sobre o ausente Junot Díaz , ver seu nome repetido ao longo de um episódio inteiro de “Sex and the City”. Na boca da protagonista, Carrie Bradshaw , que decerto se sairia muito bem nas ruas de Paraty, Michiko Kakutani, o designer de sapatos Manolo Blahnik ou algum novo autor contemporâneo soam, todos, incrivelmente parecidos

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3 respostas para “Entre Junot Díaz e Carrie Bradshaw – artigo publicado em 2009, para o “Valor econômico”, por conta da edição da FLIP daquele ano

  • Patrícia

    No meio desse texto, Zé , me perguntei como fazer o que se gosta, verdadeiramente, e levar o “cotidiano asfalto” , numa boa. O Rodrigo Naves, há uma década atrás, dizia,” se vc quer fazer um trabalho de Arte, saia das Galerias, dos Prêmios e afins e faça para vc…sem essa interferência…” Mas, hj, acho que não dá!

  • Zé Godoy

    Oi, Patricia, essa é a grande pergunta e a minha sensação é que não existe mais esse lugar “fora”. No final todo mundo q produz quer ver a obra circulando. Ao mesmo tempo, a importância da arte é mínima, os espaços q lhe caberiam foram tomados pelo entretenimento (indústria muito mais ágil e atenta às demandas atuais). A equação, pelo visto, não fecha…

  • Teresa Piccin

    Zé, li um livro do seu colega de radio, Gikovake,q entre outras coisas diz q ser livre é a sensação intima de alegria da coerencia entre pensamento e conduta. Que preço pagamos por nossa liberdade.Acrescento apenas q muitos leitores são apaixonados por autores q nunca leram.Boas caminhadas.

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