Estábulo

Sabe-se lá porque era assim, mas era. Ele, um som, uma banda inglesa de new-bossa (estamos nos anos 1980). Ela, um cheiro doce, baunilha nas narinas. A cidade pequena e sem ventos, manchada por poças no asfalto. Antes do mundo freado à base de ansiolíticos, os corações tocavam bumbos disparados. Não se sabe ao certo por que era assim, mas, de certo modo, era o único modo de ser. Ela, a venda de rendinha rosa nos olhos, suspira: “você podia me fazer feliz pelo menos ao longo desse dia”. Ele mudo. O silêncio pairando. Uma rajada repentina traz a música (aquela banda new-bossa dos anos 1980), ela soletra: es tá bu lo; es tri bi lho! Grita excitada. “O que falta pra nós é o inefável”, diz, enquanto solta a venda e segura firme o queixo dele, desenhando com o indicador sua boca selada. “O que falta pra nós”, mas não prossegue, sua mão estanca na calosidade do pomo de adão não barbeado. “Você já reparou?”. Ele mudo. “O que há de mais perfeito em você é seu pescoço, é como um baú de guarda das suas cordas vocais”. Fica então em silêncio, como simplesmente o observasse, mas não dura muito. “Assim como essa tarde”, ela retoma, “sua boca muda preserva promessas não realizadas, nos aparta da dimensão diária do absurdo”. Ele ri e com um nó de marujo prende suas pernas.

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