A cidade de origem

Que cidade é esta, que repentinamente acontece diante dos meus olhos?

Caminho a rua percorrida a cada dia. Quase nada reconheço. Apenas um homem barbado que diz frases desconexas. Não fixa seus olhos em nada, em nada que eu também veja. É o mesmo homem de sempre? Como, se percebo as chagas infeccionadas em seu rosto? Se não há como não reparar a ausência de uma perna, é possível ser o mesmo homem de ontem? Um homem aparentemente sadio? É possível que as chagas tenham se instalado durante a noite? Uma noite tétrica em que uma perna foi amputada? Ou, será que essa é uma nova cidade. Reflexo da primeira. Reflexo num espelho a refletir uma outra uma outra uma outra, infinitamente? Um cidade fraturada?

Sigo para estação, aguardo o trem. O mesmo trem de todos os dias. O dia, porém, é outro, a paisagem tem cores e sons diferentes.

Que cidade é esta? Penso, e embarco.

Enquanto viajamos – uma viagem que liga cidades –, ouço o canto dos pássaros que seguem o trajeto. Sinto os sons nítidos, próximos. Meus ouvidos tomados, invadidos, desejam ver. Concentrado, encontro sua origem: numa das saídas do vagão, um pai joga pão ao seu filho. Um menino-pássaro, engaiolado, ávido ao mastigar as migalhas enquanto gorjeia.

O trem pára repentino e devolve-me à vida, ao tempo. É preciso andar no ritmo da cidade. É preciso alcançar o mesmo prédio de todos os dias. Mas diminuo o ritmo de meus passos. Estanco. Olho ao redor. Há um telefone público e agora devo chamar. Disco um número conhecido. Um toque, dois toques, três toques. Me alivio. Quarto toque, quinto toque, mais um e desligarei, retornando recomposto ao fluxo dos dias. Antes do derradeiro momento, a ligação é atendida. Minha voz, sonolenta, surge do outro lado da linha.

Contrariado retorno à cidade de origem.

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