A coluna – Nas telas

Para quem está no Rio, o Festival de Cinema começou ontem. Já, já, em meados de outubro, é a hora da Mostra de SP. É chance de ver filmes raros, que, muitas vezes, não entram no circuito, ainda mais agora que o circuito é disputado cada vez mais – e somente – por blockbusters. Tempo de diversão adulta, de pluralidade, num tempo em que adultos infantilizados não lidam muito bem com quem não é espelho das próprias formas e comportamentos. Este é o período da colheita para quem ama o cinema e passa boa parte do ano mendigando por duas horas que nos aparte ou nos faça refletir sobre as demais horas da semana. Ontem, tive a sorte de ver “Sobre Susan Sontag”, belo documentário sobre uma das maiores intelectuais do século passado. Duas horas de reflexão, polêmica e a tentativa de decifrar, por meio de personagens próximos a autora, sua personalidade complexa, vaidosa, sempre aquém da aspiração – nada modesta – à genialidade. Para quem estiver na cidade, há mais três sessões durante a semana.

Imigrantes

“Era uma vez em Nova York” foi minha última “experiência gratificante com filmes de verdade”, uma categoria que acabo de criar e que, como costuma acontecer, algum alemão deve ter reduzido a uma enorme palavra não-hifenizada. James Gray é um dos nomes que escreveria num dos cincos dedos da mão direita se fosse obrigado a escolher (e dar a minha palavra) os mais talentosos diretores da atualidade. Gray é dono da melhor sequência de ação em anos – a perseguição de automóveis em um “Os donos da noite” – e o melhor filme recente sobre um triângulo amoroso com o seu “Amantes”. Seus filmes falam de Nova York, e “Era uma vez…” trata com talento a reconstrução da cidade nas primeiras décadas do século passado. Filma com maestria, com planos que em separado renderiam quadros a serem emoldurados e colocados na melhor parede de casa. É mais do que precisamos para um domingo chuvoso, antes que o bichinho das ideias marotas comece a nos provocar sobre o que nos espera na segunda-feira.

Música

Foi na tela que eu vi “Begin again” – em português “Mesmo se nada der certo” (tire suas próprias conclusões sobre a tradução). O filme é ok, a Keira Knightley entrega o que sempre promete: o mesmo sorrisinho docinho de “Simplesmente amor”(eu a vi no teatro em Londres. ao lado Ellen Burstyn e Elisabeth Moss, que faz “Mad Men”, e posso garantir que tendo que usar mais do que metade do rosto para construir um personagem, ela não se sai lá muito bem). Mas deixemos isso pra lá. Vamos logo ao que importa. E o que importa é esse cara chamado John Carney, um irlandês de Dublin, músico, autor do delicioso “Once”(também visto no teatro com enorme deleite, se bem que o pub montado no meio do palco, onde no intervalo entre atos era possível tomar uma pint de cerveja, possa ter influenciado os meus julgamentos). “Begin again” também é dele. E também há músicos de rua procurando um lugar ao sol, e meia dúzia de boas canções que ficam nos ouvidos depois que deixamos a sala. Taí um cara que sabe filmar música, contar uma história e fazer a Keira, além do sorriso fácil, cantar afinado. Aqui você tira as próprias conclusões.

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