A coluna – A vertigem do consumo

Para quem caminha pelos corredores de um dos grandes shoppings de São Paulo na hora do almoço é impossível não ser sacudido pela vertigem do consumo. O andar bovino de pequenos grupos que se dirigem às praças de alimentação, fazem filas diante dos cafés, enquanto contemplam anestesiados as alamedas de produtos expostos. É a derrota da cidade, de uma ideia de civilização, não há dúvida. O ambiente higienizado, estrategicamente iluminado, as vitrines chamativas, o homem reduzido à dimensão redutora de consumidor. E quando tudo se resume ao consumo, as alternativas se tornam escassas. O sonho da modernidade é um sonho em linha reta. O progresso infinito engendrado nas oficinas da produção ampliada para atender a voracidade do homem consumidor. Um sonho, deve-se ressaltar, concebido como devaneio, a que hoje estamos expostos num enigma de decifração rápida: não há planeta para os níveis de consumo atuais. Ou seja: a farra da inclusão propagandeada aos quatro ventos é uma falácia, um insulto à matemática básica dos recursos materiais. Uma série de intelectuais de diferentes áreas vem pensando o assunto, e entre eles talvez o mais surpreendente seja o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Em livros como o recém-lançado “ Há mundo por vir?”, ele debate o conceito de Antropoceno, o homem transformado numa força geológica capaz de alterar o planeta, e o dilema da inclusão num planeta já exaurido. Talvez essa seja a única questão fundamental da atualidade, e o Brasil, por caminhos pouco lisonjeiros, cumpre importante papel. Viveiros é bastante crítico em relação a alterações importantes no quadro vigente a partir do atual sistema de representação, como bem pode atestar a crise hídrica por que passa a cidade de São Paulo. Na sua opinião só a sociedade civil pode tomar as rédeas da mudança, alterando o modelo de participação política. A entrevista feita por Eliane Brum para o “El País” é uma boa porta de entrada para suas ideias. Assim como o perfil publicado pela revista “Piauí” alguns meses atrás. A poucas semanas do segundo turno, ainda ouvindo os ecos de um junho que poderia ter frutificado em mudanças mais profundas, cabe a cada um de nós pensar de maneira mais madura a respeito de nossas aspirações como indivíduos e sociedade. É preciso urgentemente exercitar princípios éticos que permeiem desde nossas pequenas ações diárias até o modo como nos organizamos socialmente e distribuímos a riqueza há séculos acumulada. São questões profundas, que precisam deixar os simpósios acadêmicos e ganhar as ruas. Questões humanas, numa acepção que hoje parece esquecida, mas que desafia a assumir posições os que ainda acreditam na capacidade de o homem desapegar-se do desejo adolescente de ser proprietário do planeta e feitor de seus iguais.

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Uma resposta para “A coluna – A vertigem do consumo

  • Teresa Piccin

    Oi zé! Que bom vc tocou neste assunto. Desde que meu neto nasceu,a sete anos,penso que mundo ele vai herdar! O Fim de Expediente bem que podia fazer um programa com o dr Gicovake, ele tem uma teoria muito interessante a respeito. Boas caminhadas!

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