Entre pontes e faixas

No porão do inconsciente de cada paulistano há um túnel, um viaduto, uma ponte estaiada. É mais forte do que nós. Por mais que se reprima, essas formas de concreto ganham o mundo como argumentos, e em boa parte das vezes insultos. Décadas e mais décadas adorando o automóvel, orgulhando-se de nossas obras viárias, de nossos engenheiros, dando nosso endosso para que políticos casados com empreiteiros ditassem os rumos da cidade, formataram essa mentalidade. No fundo da nossa alma, um Malufinho nos sopra ideias mirabolantes, nos instiga com imagens que fariam inveja aos faraós. Queremos ser grandiosos em nossa individualidade doentia e esse desejo infantilizado faz da vida na cidade um inferno. Não é à toa a dificuldade em entender que a mobilidade urbana tenha criado novas demandas. Que a fantasia personalizada dos trajetos garagem a garagem não se sustenta mais. Que nos tornamos reféns do que deveria nos libertar. O maior ideal da metrópole, desde a sua constituição, é usufruir livremente de seus infindáveis estímulos. O flâneur como a encarnação das possibilidades do homem desta cidade. Nós, deste tempo após o moderno, vivemos nas megalópoles periféricas o inverso dessa proposição: a ideia de que a privatização das áreas de convívio é o melhor que a cidade pode nos ofertar. O carro é parte dessa inversão em que subjaz um velho acordo: deixar de ser cidadão para se tornar consumidor. Essa ideologia firmada num mundo velho, que por um caminho ou outro vive seu ocaso, é a maior dificuldade em aceitar faixas para ciclistas e uma nova hierarquização do transporte, em que o automóvel não passa de um coadjuvante.

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