Notas de um sonho americano – 2

Naquele ano eu havia acabado o colegial, optando em seguir um caminho diferente dos meus amigos, todos dragados pela neurose do vestibular. Essa decisão fez daquele que seria meu último ano no Brasil, inesquecível, em que aproveitei cada momento como um real rito de despedida. Na América iria perceber com mais nitidez o tamanho do buraco em que o Brasil se encontrava. Conheci engenheiros que trabalhavam como operários na construção civil, arquitetos servindo em lanchonetes, médicos transformados em motoristas. A estes somava-se um número considerável de militares (se minha memória não falha, havia algum convênio em que os americanos treinavam os milicos brasileiros, tão bem adestrados no projeto de bloquear a “ameaça comunista”, que ainda existia, embora fosse esfarelar nos anos seguintes). Conheci ainda gente das artes – músicos, bailarinas, atores e atrizes – que sonhava o sonho da indústria cultural mais rica do mundo. Lembro-me dela nesta leva. Passei a semana entre o Natal e o Réveillon de 1988 em Nova York, no apartamento do Bob, um professor da NYU, amigo de meus tios. Era uma cidade muito distinta da que recebe centenas de milhares de brasileiros em seus outlets e na Broadway. Uma cidade que não decepcionava a quem havia assistido aos filmes de justiceiros espalhados por seus distritos, repetidos à exaustão na Sessão da Tarde. “Fuga do Bronx”, “Fuga de Nova York”, “Os selvagens da noite”, era essa a pegada. Village e Soho eram tão bem iluminados quanto à periferia de São Paulo (ok, talvez eu esteja exagerando), repletos de restaurantes baratos e ruas que deveriam ser evitadas. Era mais punk do que disco, se é que cabe a metáfora, embora o mais correto seria dizer que a new wave já estava no fim e os Talking Heads eram a maior banda do pedaço. Era com certeza mais barato. Muito mais barato. E é essa a imagem que guardo, a do apartamento dela como a miniatura perfeita da metrópole tantas vezes fantasiada. Uma quitinete, numa rua erma, que se alcançava por meio de alguns lances de escada imundos. Não estou exagerando. Provavelmente de dia fosse ainda pior. Quando eu, Bob e sua namorada iraniana cruzamos a porta, era como se tivéssemos saltado num barco, excedendo sua capacidade. Não havia como andar ou se mexer. O que dava pra fazer era ficar encostado numa das duas paredes enquanto as duas se sentavam no par de cadeiras da casa. Ela devia ter uns 25 anos, o que quando se tem 17 parece uma diferença inalcançável. Era morena e tinha traços fortes, intensificados pelo corpo atlético e definido de bailarina. Era impossível não se apaixonar. E como um bom adolescente me apaixonei e logo resolvi salvá-la. De quê?, hoje eu perguntaria. De tudo. Daquele apartamento minúsculo, da dureza dos testes, de se sentir estrangeira; principalmente apartá-la daquela atmosfera de vergonha, de decepção, de constatação dos próprios limites. O que era aquilo eu não sabia, mas era possível perceber em sua expressão, em que um riso doce não disfarçava algo que anos depois eu associaria à angústia. “É suvaco?”, a pergunta de Bob fez evaporar minhas fantasias. Assim mesmo, um su acentuado pelo so-taque gringo. Uma pergunta tão ingênua quanto perspicaz, feita diante das fotos PB penduradas no meio da sala-quarto. Ela gargalhou e então se retraiu como uma menina encabulada. Não, não era sovaco. Eram pelos, mas pubianos. Era seu o corpo num nu estilizado, o tipo de trabalho que andava fazendo para pagar as contas. Saímos para comer num indiano barato. Enquanto eu mastigava uma chamuça tentava preservar na memória aquelas imagens estrategicamente mal iluminadas. De certa forma consegui. Algo daquelas fotos permanece em mim até hoje. Algo que escapava, ou se mantinha além do erotismo classe média hoje banalizado pela tevê, pela internet e pela literatura de senhorinhas adolescentes. Algo que talvez possa se chamar de libido.

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