Notas sobre um sonho americano – 3

Para me preparar para o Toefl resolvi me matricular numa escola de idiomas que preparava estrangeiros para os testes acadêmicos. Fiz um trimestre de aulas diárias durante um período do dia, e quando retornava para casa, no meio da tarde, tratava de tocar. Morava num porão simpático na casa de meus tios, em Arlington, na Virgínia. Meu tio, um brasilianista do Texas que casou com a irmã de meu pai, havia conseguido uma bolsa de pesquisador no espetacular Smithsonian, a fundação que gerencia uma série de museus no país, a maior parte no National Mall, o simpático parque que liga o Lincoln Memorial ao prédio do Congresso. Museus gratuitos, entre eles a National Portrait Galery, com seu acervo magnífico. Devo muito aquele complexo de equipamentos culturais. Eles me proporcionaram oportunidades únicas, acesso a acervos, concertos, grandes músicos de jazz. Bastava pegar um ônibus e iniciar a viagem. Muitas vezes combinava com meu amigo Effa, um camaronês que conheci no meu curso preparatório. Ele era uns cinco ou seis anos mais velho, e falava um inglês com sotaque estranho, como se misturado ao francês que se fala nas ex-colônias. Era um gentleman, pretendida cursar economia, e dizia estar se preparando para assumir um cargo público quando retornasse. Falava assim como se isso fosse uma missão. Ser um homem a serviço do país. Não sei se era verdade. Em tempos anteriores à internet, era normal – para o bem e para o mal – acreditar no que as pessoas contavam. Effa também gostava de jazz e então era só ficar atento a programação para ter a chance de ver os irmãos Marsalis, ou Diane Schuur ou Michael Brecker. Estava tudo ali, de graça, sem contar as apresentações da Howard University, cujo curso superior de jazz produzia a cada ano alguns dos melhores músicos do país.
Effa era uma exceção num ambiente dominado por latinos. Nós brasileiros, isolados pelo idioma, nos afastamos de nossos vizinhos, abrigando-se sob as velhas estruturas do preconceito não verbalizado. Nossa miscigenação é diferente da deles. Quando a imigração caça latinos pela pele, nós desaparecemos com nossas faces indefiníveis (adoramos isso). Nós somos brasileiros – pensamos –, a América Latina é um acaso, torcemos para que na próxima grande mudança geológica o bloco de terra que habitamos se divida e se afaste do resto do continente. Somos uma ilha. Queremos ser uma ilha. Pensamos assim desde a nossa fundação.
Guatemaltecos, hondurenhos, salvadorenhos, venezuelanos, cubanos. Conheci dúzias deles, tentando fazer a vida na América, fugindo da guerra, da guerrilha ou da economia precária. Sempre tive a impressão de que estavam mais fodidos do que nós (que já éramos bem fodidos). Todos pareciam agradecidos em ter escapado de uma realidade insuportável.
Penso que a memória se abrigue em estereótipos. É difícil lembrar sem classificar ou reduzir. É difícil reter apenas os fatos sem ser contaminado pelos primeiros julgamentos, muitos (se não todos) feitos por alguém que não somos mais.
Diferentes ou não, tínhamos visto os mesmos filmes, ouvido as mesmas músicas, e as meninas peruanas ou da Bolívia também me pediam pra tocar “Escalera al cielo” no violão.
Demorei um bom tempo até entender que queriam ouvir o clássico do Led Zeppelin.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: