Notas sobre um sonho americano – 4

Viver num país estrangeiro é colocar em xeque a própria identidade. O que se deseja torna-se tíbio; deixamos de nos reconhecer, nossas fantasias não sabemos se são nossas ou de um outro que passamos a interpretar.
Este outro é um modo de se manter apartado dos ciclos de nostalgia; afastar-se do sentimento de não pertencer.
As experiências são diversas, mas o que resiste como traço comum é a necessidade de criar vínculos novos, vínculos que, você não demorará a perceber, são potencializados pelo efêmero. Você sabe que muito provavelmente nunca mais irá rever aquelas pessoas no futuro, mas sabe também que elas são fundamentais para que o seu futuro exista.
Viver num país estrangeiro é estar exposto. Ter consciência do risco, sem ter clareza de sua forma; perceber o jogo de probabilidades que governa nossos dias. Acelerar até os limites de velocidade se tornarem borrados e sua imagem se fixar nas placas de advertência.
É o que penso quando relembro de uma carona inusitada. Na memória, o homem atarracado ao meu lado me lembra Wallace Shawn; um Shawn nada charmoso, é verdade, quase transparente de tão desinteressante. Quando os termômetros passam de zero, você não se preocupa em avaliar quem se dispõe a ceder um banco num carro aquecido. Vive-se longe, nas franjas das cidades, anda-se muito a pé, o inverno da Costa Leste, o noticiário atual não me desmente, não permite firulas. Em 1989, comprava-se um carro usado nos EUA por 300 dólares. Carros e combustível baratos, eis o sonho americano (que nós reinterpretamos à nossa maneira). Ele tinha um carro vermelho minúsculo, com os bancos comidos, safra 1976 (talvez 300 dólares fosse demais). Partimos de D.C., atravessamos o Potomac em direção à Arlington, onde ele me deixaria numa estrada para eu pegar o ônibus para casa. No meio da tarde o trânsito estava calmo, e mergulhando para dentro dos subúrbios, a paisagem se tornava cada vez mais bucólica, uma mistura de verde acinzentado e neve suja. Eu não o conhecia até o começo daquela tarde, quando nos encontramos numa festa de confraternização, mas a impressão que guardo é a de um homem inquieto, agitado. Durante o trajeto, eu tentava ser cordial, fazendo perguntas de elevador para evitar o excesso de silêncio que alimenta pensamentos tortos. Eu perguntava uma coisa simples, ele me devolvia resposta longas e ansiosas. De onde você é? De Juiz de Fora, mas viajei muito pra chegar aqui, tive que vir via Paraguai. Poxa vida! E no que você trabalha? Já fiz de tudo, construção civil, posto de gasolina, tô esperando o Green Card, vou casar com uma americana. Sei. Na verdade, tô esperando os papéis do meu divórcio no Brasil, pra dar entrada no processo. Difícil foi convencer minha mulher… Ela não veio com você? Não… saí fugido do Brasil… trabalhava no Coroa-Brastel…
Sei…
Quem passou os anos 1980 no Brasil e não estava em coma deve lembrar do caso Coroa-Brastel. Crimes financeiros aparentados com os atuais, como se vivêssemos enfeitiçados pelo tempo perpétuo das falcatruas. Quando ouvi aquele nome ocupando o ar seco e quente daquele carro americano, numa estrada americana, num inverno americano, pensei – por um segundo, como uma ideia que a gente tem dificuldade de lidar – que independente de onde estivermos nossa identidade é uma massa movediça que se amolda às superfícies mais inesperadas. A identidade somos nós, mas também o passado, que não é só nosso, mas coletivo. Objetos em forma de imagens e palavras que carregamos no bolso sem saber, e que um dia escorrem como uma pústula.

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