Cony, 90 anos

Na primeira vez que li Carlos Heitor Cony não gostei. Foi no começo dos anos 1990, e ele passava ocupar o espaço que fora de Otto Lara Resende na segunda página da Folha. Não gostei dele, nem gostaria de ninguém que não fosse o Otto, por quem era absolutamente fascinado. Em tempos de fax, sugeri ao jornal que mantivesse o espaço vago, em branco, como fazem algumas equipes esportivas quando um grande atleta se aposenta.

Obviamente, para o bem dos leitores, mesmo aqueles com ideias estapafúrdias, Cony prosseguiu escrevendo e não demorou muito para me conquistar.

A crônica é um gênero muito específico, e, de certa forma, quase o avesso do romance. Mesmo assim era possível identificar naquele texto diário traços do romancista que ainda não conhecia – a mordacidade, a ironia, o pessimismo e um lirismo comedido.

As pontas se unem em 1995 com o estrondoso sucesso de Quase-memória, e a partir dele com as novas edições de seus primeiros romances, pude conhecer, assim como boa parte da minha geração, o grande prosador.

Desde sua estreia, com O Ventre, em 1958, Cony ocupa um espaço muito particular no romance nacional. Uma posição incômoda, pessoal, e que em vários momentos fez com que a avaliação de seu trabalho fosse prejudicada.

Para a crítica sociológica, marxista, que até hoje domina os estudos literários, era difícil engolir um romancista que se interessava mais pelas tensões que ocorrem na mente e nas vísceras do que as que correm pelo tecido social. E que expunha a complexidade da luta ideológica, num país que mimetizava em suas fronteiras a Guerra Fria, duvidando da luta armada, enquanto cutucava o regime de milicos ordinários.

Seus livros são complexos, e diversos, o que dificulta a tarefa de definir o escritor com algum rótulo. Mais correto é tratá-los um a um, com suas peculiaridades.

A atmosfera existencialista em O ventre; uma novela feita de silêncios, como o belo Antes, o verão; o romance em chave picaresca em Pilatos.

Uma paleta variada, que deve ter confundido muitos dos leitores de Quase-memória, ávidos por reencontrar o mesmo autor em outras obras. Ele estava lá. Mas não de forma óbvia. Não em temas, nem em personagens, tampouco em cenários recorrentes. Está numa posição em relação ao mundo. Numa negação, na não aceitação de dogmas religiosos, culturais ou ideológicos. Alguém que construiu sua identidade dizendo em boa prosa que não deseja participar.

No Clube do Livro de hoje, comento brevemente a obra de Cony.

 

 

 

 

 

 

 

 

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