“Americanah”,de Chimamanda Ngozi Adichie

De olho nos Estados Unidos, nós brasileiros desconfiamos de nosso lugar na América Latina, e ainda mais da herança africana. Ela corre em nosso sangue miscigenado, por mais que as fantasias eurocêntricas de parte da população tente negar. O certo é que pouco sabemos sobre a África, mesmo a África lusófona, que de tempos em tempos um Mia Couto ou um Agualusa nos ensina a observar. É pouco. É nada. É uma negação sobre si, que como um dia bem escreveu Freud, de alguma forma retorna, sem que consigamos explicar.

O mundo de hoje é pequeno, é perto, perto até demais para quem clica e viaja no mundo virtual. É um mundo próximo para quem lê, para quem se interessa. Os livros estão aí, por mais que desculpas esfarrapadas os mantenham guardados nos estoques dos sebos e livrarias. Tudo se resume a escolhas. De assumir as próprias escolhas e deixar-se de ser tutelado.

Digo isso, pois é importante sempre dizer o que nos incomoda. Digo, sobretudo, depois da leitura de Americanah, da nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, livro de março do Clube do Livro CBN (o comentário fica para a semana que vem por conta do noticiário da crise).

Americanah são vários livros, que se expandem em mais de 500 páginas lidas com voracidade. É uma história de amor entre dois jovens nigerianos, que passam mais de quinze anos afastados. É uma história sobre emigração, e sobretudo sobre um tipo de emigração muito próxima a nós, neste momento do Brasil. A emigração da jovem elite educada que não consegue enxergar no próprio país um futuro. É um livro sobre estrangeiros. A vida de um estrangeiro num país que não é o seu. Os papéis que cabem a esse estrangeiro (esse estrangeiro, que como nós, não tem o pedigree do velho mundo). O funil finíssimo que poucos conseguem atravessar. É um livro sobre a questão da raça nos Estados Unidos, no intenso momento em que um negro se prepara para vir a ser o primeiro presidente não branco do país. É ainda um livro sobre a África contemporânea, sobre a Nigéria especificamente, e talvez nenhum país seja melhor do que a Nigéria para expor um continente de recursos naturais tão abundantes quanto às reservas de ganância e corrupção. De centros urbanos caóticos. De um corte drástico e brutal entre os que têm muito e os que têm nada. De imensa criatividade e de excêntricos bolsões de excelência acadêmica. Um continente vibrante e desgraçado. Injusto e fascinante.

Lançado em 2014 no país, e já em segunda edição graças ao boca a boca (que termo lindo, como se a transmissão da leitura se desse entre beijos) que mantém um resíduo de vida cultural vibrante no país, Americanah é um alento em tempos de barbárie.

 

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