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A Coluna – Cinema de adulto

Boa parte do quase um milhão de brasileiros que visitam Nova York anualmente desconhece o tamanho do buraco em que a cidade se encontrava entre os anos 1970 e a primeira metade dos 1980. Não é preciso se alongar nas descrições, basta abrir os nosso jornais de hoje e transportar os temas mais candentes: corrupção, violência, Estado falido, para Manhattan e seus distritos contíguos. Os cantinhos charmosos onde se faz fotos, a rua cheia de restaurantes bacanas, a reinvenção do espaço público, tudo isso, que imaginamos um dia ter em nossas cidades, aconteceu não por um acaso, nem pela ação de algum herói midiático. Tratou-se de uma construção coletiva, a união de gente que amava a cidade e não se contentava com seu estado; políticos que percebiam o potencial para suas carreiras e um empresariado disposto a abrir os bolsos para ganhar lá na frente. Toda essa longa digressão, pensada enquanto caminhava sob o Minhocão agradecendo Paulo Maluf e seus eleitores pelo mais famoso de seus Godzillas de concreto, é pra falar de “O ano mais violento”, ótimo filme de J.C. Chandor (“Margin Call”), em cartaz desde a semana passada. O tal ano é 1981, a cidade você já sabe. O roteiro simples: um empresário ambicioso que quer ampliar seus negócios numa cidade problemática (você com certeza já ouviu essa história em algum lugar). É filme de adultos (essa categoria que o cinema atual nos obriga a fundar). Sua antológica cena de abertura homenageia dois ícones dos anos 1970, Rocky o Lutador, e os vídeos de Marvin Gaye fazendo treinos físicos para se livras das drogas. A música é esta, o que não é pouca coisa. Há ainda Jessica Chastain, Oscar Isaac e David Oyelowo. Depois da sessão não se contente com uma bebida barata, você merece algo melhor.


A Coluna – Homens em crise

O sueco “Força Maior”, em cartaz no país, utiliza-se do inimitável nonsense escandinavo para tratar de um tema recorrente nas revistas femininas, nos consultórios de psicólogos, nos bares, enfim, no mundo atual: o que está acontecendo com os homens, com o macho da espécie humana? O filme de Ruben Ostland irá valer-se de uma situação patética – a reação covarde de um pai diante de uma quase tragédia – para investigar  a dificuldade de se manter determinados papéis que por séculos se associou à masculinidade. O pai herói, fixado pela cultura, fracassa terrivelmente ao tomar consciência da distância entre suas práticas e seus impulsos. Toma consciência, sobretudo, de que numa sociedade em que homem e mulher se equiparam, o crédito secular das outorgas patriarcais deixa de ser fato para repetir-se como farsa. Hoje, o lugar do homem é mais uma concessão feminina do que uma imposição cultural.

Até na Casa Branca

A terceira temporada de “House of Cards”é a mais fraca do seriado da Netflix. A força destruidora de Francis Underwood funciona melhor nas penumbras do Congresso do que na excessiva exposição do executivo. Underwood, esse personagem dúbio e movediço, já pode intuir o que lhe reserva a quarta temporada. Cercado de mulheres que querem sua cadeira, irá encontrar em sua Claire – feita à sua imagem e semelhança – uma inimiga íntima. Enquanto o tabuleiro político se mistura ao embate doméstico, uma pergunta paira resistente: quem é inventor, quem é inventado?

Tudo pode dar certo

Se a vida é uma invenção, como gosta de dizer Ferreira Gullar, um recorte de sentido em meio ao caos, cabe a cada um inventar seus dias. Cabe a cada um inventar o papel que quer nesta vida é o que diz o delicioso “Tudo pode dar certo”, um Woody Allen que melhora a cada nova exibição. Inventar a própria história, evitar papéis pré-definidos, desviar-se das fantasias sobre si, não aceitar imposições externas, negociar relações antigas, fazer o que for preciso, afinal, antes do último badalar do sino, esta é uma história que escrevemos e contamos apenas a nós mesmos.

 


O mais perfeito dos dias carnavalescos

Nestes dias de folia, quem não curte brincar o Carnaval torna-se um pária, um doente (do pé) contagioso, um estraga-prazeres. Fico feliz em fazer parte da tribo. Numa real democracia, os dias de blocos e desfiles deveriam ser compensados por dias de silêncio e reflexão (será?). Há, porém, algo divertido em ser um verdadeiro outsider. Fantasias (dentro da cabeça) pra vestir e sair por aí, entre o intervalo dos tambores. É o que tenho feito. Como um morto-vivo que levanta das catacumbas, saio do meu retiro quando o sol se põe e caminho rápido, trajando minha indumentária negra, pelos atalhos do bairro. Desviando-me das ruas coloridas sigo até uma portinhola que dá acesso a um culto muito peculiar. Lá, meia dúzia de seres nada bronzeados silenciam diante da tela em branco, onde durante duas horas se projetam fantasias. A noite de ontem, por exemplo, não podia ter sido mais apropriada, conduzida pelo meu ex-vizinho paulistano, Nick Cave. Para quem não conhece, ou já é fã do bardo australiano, “20000 dias na terra“funciona como um catecismo. Aprende-se que a imaginação é o que expande os limites do ser, e as narrativas são o diálogo possível com os fantasmas da alma. Fantasias, fantasmas, transformar, inventar. Quer algo mais carnavalesco?


A coluna – As regras do consumo

Zapeando o noticiário da manhã, antes de entrar no ar, deparei-me com matéria do Bom dia Brasil sobre o aumento do custo dos estacionamentos e a perda de receita do pequeno comércio em São Paulo. Embora ouça dois urbanistas com visões divergentes sobre o projeto das ciclofaixas, o material é crítico ao projeto, opção endossada por seus apresentadores (o rapaz Bocardi que fica em São Paulo tem uma vocação conservadora xiita a ser observada).
Sou absolutamente favorável ao pequeno comércio, e penso que a prefeitura já deveria ter lançado um projeto de revitalização desse tipo de atividade. No Rio, a prefeitura, de forma um tanto precária, tenta reorganizar a concentração monstruosa de determinados tipos de estabelecimento (redes de farmácias, agências bancárias) em alguns bairros da cidade.
Não há dúvida que há muito o que fazer, mas transferir o ônus dos problemas dos comerciantes para utilização da bicicleta como meio de transporte me parece uma simplificação.
Esse tipo de atividade está em decadência há pelo menos duas décadas, perdendo espaço para a explosão dos shopping centers. A troca de perfil de estabelecimento soa como metáfora perfeita da escolha da cidade por espaços privados em detrimento de espaços públicos. Troca-se o convívio nas ruas de comércio de bairro pelos corredores do shopping muitas vezes nada próximo. Esta troca é mediada pelo automóvel, que se torna ponto central dessa mudança. Vai-se ao shopping pelo conforto de estacionar e pela possibilidade de se resolver diversas demandas de consumo. Ampliando o quadro, o que se demonstra é uma substituição mais profunda: deixar de ser cidadão para se tornar consumidor.
Nesta mesma semana descobriu-se os códigos de conduta do shopping Del Castilho, no Rio. Segundo estes, circular sem objetivo definido, “vadiar” conforme o termo usado, pode acarretar a expulsão do estabelecimento. Ideias que no papel tendem a chocar mas que apenas explicitam regras há muito praticadas.


A Coluna – Beautiful

O resumo do resumo da história é mais ou menos o seguinte. Imagine uma garota animada e talentosa, que estuda piano para tocar os clássicos. Imagine então que ela não queira tocar os clássicos. Sua mãe quer. O que ela quer é compor. Assim, como um Cole Porter, um Gershwin. E que ela componha. E tenha uma pastinha com suas partituras e convença a mãe a deixá-la mostrá-las a um editor, dono de gravadora. E que suas canções conquistem de primeira. E que ela conheça um cara bonitão e que fique grávida e se case e que tenha uma filha aos dezessete. E que esse cara bonitão saiba escrever letras bonitas. E que os dois passem a fazer canções juntos. Canções como esta aqui. Ou quem sabe esta.
Imaginou?
Deixe-me seguir então um pouco mais.
Imagine que o bonitão seja um cara complicado e que os dois se separem. E que ela também passe a escrever as próprias canções. Tipo esta aqui. E. Apesar de tudo. Apesar de ser apenas uma garota que queria escrever canções bonitas, ela se convença a cantar. E que diabos cante bem à beça. E então resolva fazer um disco. Não qualquer disco. O disco. O disco de uma mulher que mais tempo ficou no primeiro lugar nas paradas americanas. Um disco com doze canções perfeitas. Um disco como este.
Está bom?
Bom esse é o resumo do resumo da trajetória de Carole King. O resumo do resumo de sua vida transposto para o palco no belíssimo musical “Beautiful”. Uma sorte para quem viu e a certeza de que ser contemporâneo dessas canções fez a vida ser melhor.


Coisas que você vai ver (e ouvir, se já não ouve)

Na semana passada tive a oportunidade de me adiantar aos lançamentos cinematográficos dos próximos meses. E devo dizer que tive muita sorte. Vi três filmes diferentes entre si, mas intensos, criativos, revigorantes.
Comecemos com “The disappearance of Eleanor Rigby” – William Hurt e Isabelle Huppert ccomo coadjuvantes de luxo, e Jessica Chastain e James McAvoy vivendo os protagonistas. História de um casal que se separa depois de uma tragédia doméstica, trata-se de um dois em um, dois episódios pelos olhos dele e dela. Chastain é provavelmente a atriz mais talentosa de sua geração, a trilha (o trailer aqui) é das mais belas, e três ou quatro sequências nos faz lembrar o que buscamos quando topamos nos ausentar do mundo por três horas para assistir histórias de gente que não conhecemos.
“Whiplash” é o melhor filme sobre música em anos (o trailer aqui). Na verdade, o certo é dizer se tratar do melhor filme sobre obsessão nos últimos anos. E arte e obsessão são irmãs siamesas que a toda hora tentam morder o próprio pescoço. É a história de um jovem e talentoso músico num conservatório de ponta, e sua relação com um professor genial e carrasco. Oferece o melhor que a combinação boa música e boas imagens pode oferecer.
“Birdman”. Apesar de adorar o “Beetlejuice” de Tim Burton, nunca fui muito fã do Michael Keaton (sua escolha para Batman é um dos maiores mistérios recentes da humanidade). Também não sou grande fã de Alejandro Iñárritu, o mexicano que dirigiu o excelente “Amores brutos”, antes de se perder nos panfletos filmados que fazia junto com seu parceiro roteirista Guillermo Arriaga (um tremendo mala sem alça). Para sorte do Iñárritu a parceria acabou e agora ele pode se soltar. “Birdman” é um achado (o trailer aqui). Um ator que fez muito sucesso como o herói de uma dessas franquias cinematrográficas de cartum (o Homem-pássaro do título), que resolve fazer uma montagem na Broadway, adaptando a obra de Raymond Carver. É difícil ler Carver e não tentar imitá-lo. Os mais sensatos, ou espertos, resistem à tentação e tratam apenas de homenageá-lo, como fez o Murakami em seu livro de corridas. É o que faz o mexicano. Em vez de adaptar para o cinema, o cineasta filma o que seria uma montagem de Carver na Broadway protagonizada por um ator sem nenhum crédito artístico. Edward Norton faz um dos atores da peça, um escroque para quem a vida só acontece no palco. Há ainda as ótimas Naomi Watts e Andrea Riseborough, mas por incrível que pareça (pelos menos para mim) é o Keaton quem brilha, num papel que emula um pouco sua trajetória. Filmaço para quem gosta de sair andando por aí com um filme na cabeça.

Uma nota para a próxima coluna: na semana que vem vou escrever sobre Carole King, mas se você não a conhece ou está com saudade, vale uma olhada neste documentário da BBC quando ela estava no auge.


A coluna – A nova oratória

A mocinha da novela diz, com ênfase, saboreando cada sílaba: “Agora ele precisa escolher entre eu e eles”. Na porta da igreja, o cartaz convida: “Vinde a mim todos que estais necessitados”. E assim segue. O impulso primeiro é reagir. Como podem tratar a língua tão mal! Mas então o impulso passa e pode-se pensar. No Brasil contemporâneo, este em que a nova classe média tem acesso a bens que antes não tinha, e que se torna um importante público consumidor, uma nova oratória passa a ser praticada. Não descarto que nem autor, nem diretores e atores tenham percebido o erro de construção na frase da jovem e talentosa atriz, tampouco desconsidero que o material da igreja esteja repleto destes cacos retirados de algum original do Evangelho. Pode bem ser isso. E os professores Pasquale estão aí para fazer disso assunto. Gosto mais de outra hipótese. Gosto de pensar que o autor de novela põe o erro linguístico (me perdoem os gramáticos gerativos!) na boca da atriz para mostrar a origem humilde da personagem, mesmo que no restante de suas construções seu português seja bastante aceitável. Gosto de pensar que o pastor e seus asseclas quando recortam alguma mensagem reconfortante dos testamentos originais façam questão de abusar da velha confusão da segunda com a terceira pessoa do plural, utilizando o vós, que caduca na língua diária, como um modo de sugerir refinamento ao trato cotidiano. Autor e pastor praticam uma nova oratória, onde um erro reproduzido diversas vezes dá a sensação de inclusão aos que até então estavam apartados.


A Coluna – As luzes da cidade

Dentre os excessos da vida na metrópole, há práticas que de tão cotidianas nos dão a impressão de fazer parte da humanidade como um órgão. Se a ideia da vida sem internet, sem celular, soa hoje como uma hecatombe, o que diríamos da diminuição da oferta de energia, ou das torneiras abundantes de água com que nos acostumamos? Ideia absurdas filhas de perguntas básicas que foram deixadas para trás: do que realmente precisamos?, onde começa a necessidade?, o que pode-se nomear conforto e o que são os excessos?, o que temos além da conta? Pesquisadores vem se debruçando sobre essa questão em relação à poluição visual, principalmente a exposição à luz nas grandes cidades (a matéria do Guardian pode dar uma boa ideia sobre a discussão). É um bom ponto. A ideia de que a meia-noite, que perdeu a ideia semântica de meio-da-noite, ter se transformado no ponto de partida ou adiado do sono, faz pensar. As lojas 24 horas, sete dias por semana, os trabalhos noturnos, o ciclo do corpo alterado, a ideia de um mimi jet lag diário a que somos expostos, também. O custo no corpo, no corpo feito para ser desligado assim que o sol se põe (veja as brigas entre corpo e compromisso no horário de verão) é o exemplo prático do que se diz. Na verdade, talvez possamos pensar numa ideia básica que permeia esses estudos e parte importante sobre a reflexão ambientalista atual: o progresso como linha reta para o futuro. A boca gulosa de suas engrenagens dizendo mais e mais pode ter sido uma fantasia poderosa que nos trouxe até aqui, mas assim como o planeta que nos abriga tende a não ser mais suportada pelo bicho de carne e alma.


A coluna – A vertigem do consumo

Para quem caminha pelos corredores de um dos grandes shoppings de São Paulo na hora do almoço é impossível não ser sacudido pela vertigem do consumo. O andar bovino de pequenos grupos que se dirigem às praças de alimentação, fazem filas diante dos cafés, enquanto contemplam anestesiados as alamedas de produtos expostos. É a derrota da cidade, de uma ideia de civilização, não há dúvida. O ambiente higienizado, estrategicamente iluminado, as vitrines chamativas, o homem reduzido à dimensão redutora de consumidor. E quando tudo se resume ao consumo, as alternativas se tornam escassas. O sonho da modernidade é um sonho em linha reta. O progresso infinito engendrado nas oficinas da produção ampliada para atender a voracidade do homem consumidor. Um sonho, deve-se ressaltar, concebido como devaneio, a que hoje estamos expostos num enigma de decifração rápida: não há planeta para os níveis de consumo atuais. Ou seja: a farra da inclusão propagandeada aos quatro ventos é uma falácia, um insulto à matemática básica dos recursos materiais. Uma série de intelectuais de diferentes áreas vem pensando o assunto, e entre eles talvez o mais surpreendente seja o antropólogo brasileiro Eduardo Viveiros de Castro. Em livros como o recém-lançado “ Há mundo por vir?”, ele debate o conceito de Antropoceno, o homem transformado numa força geológica capaz de alterar o planeta, e o dilema da inclusão num planeta já exaurido. Talvez essa seja a única questão fundamental da atualidade, e o Brasil, por caminhos pouco lisonjeiros, cumpre importante papel. Viveiros é bastante crítico em relação a alterações importantes no quadro vigente a partir do atual sistema de representação, como bem pode atestar a crise hídrica por que passa a cidade de São Paulo. Na sua opinião só a sociedade civil pode tomar as rédeas da mudança, alterando o modelo de participação política. A entrevista feita por Eliane Brum para o “El País” é uma boa porta de entrada para suas ideias. Assim como o perfil publicado pela revista “Piauí” alguns meses atrás. A poucas semanas do segundo turno, ainda ouvindo os ecos de um junho que poderia ter frutificado em mudanças mais profundas, cabe a cada um de nós pensar de maneira mais madura a respeito de nossas aspirações como indivíduos e sociedade. É preciso urgentemente exercitar princípios éticos que permeiem desde nossas pequenas ações diárias até o modo como nos organizamos socialmente e distribuímos a riqueza há séculos acumulada. São questões profundas, que precisam deixar os simpósios acadêmicos e ganhar as ruas. Questões humanas, numa acepção que hoje parece esquecida, mas que desafia a assumir posições os que ainda acreditam na capacidade de o homem desapegar-se do desejo adolescente de ser proprietário do planeta e feitor de seus iguais.


A coluna – Nas telas

Para quem está no Rio, o Festival de Cinema começou ontem. Já, já, em meados de outubro, é a hora da Mostra de SP. É chance de ver filmes raros, que, muitas vezes, não entram no circuito, ainda mais agora que o circuito é disputado cada vez mais – e somente – por blockbusters. Tempo de diversão adulta, de pluralidade, num tempo em que adultos infantilizados não lidam muito bem com quem não é espelho das próprias formas e comportamentos. Este é o período da colheita para quem ama o cinema e passa boa parte do ano mendigando por duas horas que nos aparte ou nos faça refletir sobre as demais horas da semana. Ontem, tive a sorte de ver “Sobre Susan Sontag”, belo documentário sobre uma das maiores intelectuais do século passado. Duas horas de reflexão, polêmica e a tentativa de decifrar, por meio de personagens próximos a autora, sua personalidade complexa, vaidosa, sempre aquém da aspiração – nada modesta – à genialidade. Para quem estiver na cidade, há mais três sessões durante a semana.

Imigrantes

“Era uma vez em Nova York” foi minha última “experiência gratificante com filmes de verdade”, uma categoria que acabo de criar e que, como costuma acontecer, algum alemão deve ter reduzido a uma enorme palavra não-hifenizada. James Gray é um dos nomes que escreveria num dos cincos dedos da mão direita se fosse obrigado a escolher (e dar a minha palavra) os mais talentosos diretores da atualidade. Gray é dono da melhor sequência de ação em anos – a perseguição de automóveis em um “Os donos da noite” – e o melhor filme recente sobre um triângulo amoroso com o seu “Amantes”. Seus filmes falam de Nova York, e “Era uma vez…” trata com talento a reconstrução da cidade nas primeiras décadas do século passado. Filma com maestria, com planos que em separado renderiam quadros a serem emoldurados e colocados na melhor parede de casa. É mais do que precisamos para um domingo chuvoso, antes que o bichinho das ideias marotas comece a nos provocar sobre o que nos espera na segunda-feira.

Música

Foi na tela que eu vi “Begin again” – em português “Mesmo se nada der certo” (tire suas próprias conclusões sobre a tradução). O filme é ok, a Keira Knightley entrega o que sempre promete: o mesmo sorrisinho docinho de “Simplesmente amor”(eu a vi no teatro em Londres. ao lado Ellen Burstyn e Elisabeth Moss, que faz “Mad Men”, e posso garantir que tendo que usar mais do que metade do rosto para construir um personagem, ela não se sai lá muito bem). Mas deixemos isso pra lá. Vamos logo ao que importa. E o que importa é esse cara chamado John Carney, um irlandês de Dublin, músico, autor do delicioso “Once”(também visto no teatro com enorme deleite, se bem que o pub montado no meio do palco, onde no intervalo entre atos era possível tomar uma pint de cerveja, possa ter influenciado os meus julgamentos). “Begin again” também é dele. E também há músicos de rua procurando um lugar ao sol, e meia dúzia de boas canções que ficam nos ouvidos depois que deixamos a sala. Taí um cara que sabe filmar música, contar uma história e fazer a Keira, além do sorriso fácil, cantar afinado. Aqui você tira as próprias conclusões.