Arquivo da categoria: Cinema

O poeta do instante perfeito

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“O Globo”de hoje traz minha entrevista com Ron Padgett, poeta norte-americano ligado à chamada Segunda Geração da Escola de Nova York, ex-diretor do mítico The Poetry Project no East Village, autor dos versos de “Paterson”, novo filme de Jim Jarmusch que entra em cartaz hoje no país.

 

 

 

 

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Disco music, fantasmas e um amor de verdade

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Não há meio termo, o sobrenatural na ficção ou dá frutos geniais como a obra de Edgar Allan Poe e a versão de Kubrick para O Iluminado, ou se converte em pastiches medonhos como aquela série juvenil do vampiro, do lobo e da espetacularmente sem graça Kristen Stewart. River, produção em seis capítulos da BBC One, distribuída por aqui pelo Netflix, está no primeiro grupo. E, pode-se dizer, avança por caminhos inesperados.

O ponto de partida é o assassinato brutal de uma policial (a ótima Nicola Walker) investigado obsessivamente por seu parceiro, John River, o excepcional Stellan Skarsgard. Acontece que River ouve e vê gente morta, inclusive sua falecida companheira de trabalho. Além de lidar com a complexa investigação, com seus próprios demônios, River precisa gerenciar um elenco de gente do outro mundo, que insiste em procurá-lo para conversar. Parece arriscado? Posso garantir que não é. Funciona bem como a representação visual dessa conversa infinita que temos com nossos próprios botões.

A trama se desenvolve sutilmente em chaves que vão sendo reveladas no ótimo roteiro de Abi Morgan. Nada é gratuito. Nem mesmo o tema musical recorrente, o clássico da disco inglês (é sério!) Tina Charles.

Ouça a música.

Veja a série.

Deixe que seus personagens te acompanhem por aí nos dias mais duros.

Não tema falar sozinho.


Perseguidores da memória

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Este texto não contém spoilers, mas uma série de elogios efusivos.

Falo de um dos melhores roteiros das últimas temporadas, Remember, do canadense Atom Egoyan (com roteiro de Benjamin August), lançado por aqui na semana passada como Memórias secretas.

O nazismo e seus efeitos demoníacos tem sido um gênero substancioso do cinema. Um gênero com filmes definitivos como Mephisto, O ovo da serpente, Os meninos do Brasil, e mais recentemente O filho de Saul. O que surpreende ainda mais em Memórias secretas é justamente o fato de conseguir encontrar um enfoque próprio, desde as primeiras cenas: dois idosos, interpretados pelos craques Martin Landau e Christopher Plummer, vivem num pacato retiro, de onde arquitetam uma aventura ardilosa: perseguir um soldado nazista pelos vastos territórios da América do Norte. É um filme sobre feridas que nunca cicatrizam, mas mais do que tudo um filme sobre a memória, sobre as mais distintas e subterrâneas e muitas vezes esquecidas lembranças que nos habitam, que nos conformam e nos identificam. Memória de quem somos frágeis reféns, tão frágeis quanto corpos macerados pela barbárie.

 


Uma tremenda série e a melhor aposta para novo 007

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Os protagonistas de John Le Carré em algum momento deparam-se com um dilema: como manterem-se íntegros diante das estruturas corruptas do poder. Revelam com seus atos os limites da ética do indivíduo diante do banditismo oficializado, ou convivendo com a amoralidade. Não é difícil adivinhar que um escritor magnifico como Le Carré não se contentaria com qualquer maniqueísmo rastaquera, tampouco com heróis inverossímeis. Seus homens e mulheres feitos de fibra e combustão interna se dão mal, muitas vezes mal a ponto de desistir.

Obviamente, o cinema já cravou suas ventosas gulosas no corpo robusto desta obra que se espalha por mais de cinco décadas. Nessa direção, cabe separar o que há de bom e o que há de equívoco.

Boa parte de sua produção é fiel à Guerra Fria e seus desdobramentos. É onde se encaixa “O espião que veio do frio”, ainda nos anos 1960, ou o datado “A casa da Rússia”, com roteiro de Tom Stoppard e Sean Connery pós-James Bond. A promiscuidade entre governos e grandes corporações pode ser vista no melhor filme de Fernando Meirelles: “O jardineiro fiel”. Mais recentemente, os produtores ingleses vem se dedicando com avidez. Do confuso “O espião que sabia demais” ao ótimo “O homem mais procurado”(numa das últimas e magistrais atuações de Philip Seymour Hoffman). A bola da vez é “The night manager”, séria em seis capítulos que vai ao ar quase secretamente no Brasil, pelo canal AMC.

A trama, originalmente situada na Guerra do Iraque nos anos 1990, é transferida para o Egito da Primavera Árabe. Jonathan Pine (Tom Hiddleston) é o gerente noturno de um hotel de luxo no Cairo, cuja vida será transformada drasticamente durante a queda da ditatura Mubarak. A ação se acelera no tempo e desloca-se entre Suíça, Espanha e Londres. Personagens dúbios e heróis com ideais cada vez mais raros, como honra e compaixão, se enfrentam. O mal ora se personifica num vilão com ares bondianos (interpretado pelo ex-doutor House, Hugh Laurie), ora se dispersa entre empresas de fachada e órgãos de governo. Um biscoito raro e fino que dá a ver o melhor candidato a novo 007.

É só fazer as suas apostas.

 

 

 

 


O filho de Saul é um filme impressionante

Prolegômenos ou o que deve ser dito antes de se comprar o ingresso: Seria saudável que diferenciássemos no português filmes com pretensões artísticas de filmes feitos para entreter. Assim como os norte-americanos. Por mais que essa fronteira por diversas vezes seja flexível, e as velhas divisões entre alta e baixa cultura há muito tenham sido colocadas em xeque, de certo ajudaria a evitar confusões. A audiência teria à sua disposição uma espécie de advertência. Por exemplo: esse filme não deve ser consumido com um balde de pipoca ou consultando as atualizações do Facebook. Confusões que sempre parecem disfarçar um conflito ético: é correto não dar atenção necessária aos dramas encenados na tela? Ou só porque a tela não é a vida (alguém, como Buñuel, poderia dizer que a tela é a vida que acontece atrás dos olhos) podemos nos ver livres de agir com determinados princípios?

Havia algo de desumanizado na senhora que à minha frente corria os olhos pelas suas redes sociais enquanto corpos eram empilhados nas fornalhas de Auschwitz. Há algo de assustador em perceber que o tempo e a ignorância e o embotamento dos sentimentos e a falta de princípios éticos fizeram com as sociedades ocidentais. A tentativa insana de limar da experiência a violência da existência, a fantasia de assepsia, de limpeza, de purificação alcançados pela apatia, o consumo desenfreado e a frivolidade.

Pois são questionamentos desta ordem que um filme como “O filho de Saul” nos causa. Contando uma história diversas vezes já contada, mas contando-a de forma diferente, única, transportando a audiência para dentro da máquina de extermínio, ombro a ombro com seus operários, passo a passo convivendo com os prisioneiros do Sonderkommando, transformados em mão de obra ativa do holocausto.

Vá preparado.

 


Um acerto, um equívoco

Tive a sorte de assistir Clive Owen na Broadway fazendo um maravilhoso Pinter. Todo ator deveria ter em sua formação um módulo Pinter para aprender aquelas frases secas no ritmo correto. Clive deve ter cursado o seu. Ou o talento e a intuição fizeram bem o seu trabalho. Clive não é um ator para qualquer papel. Mas quando recebe o papel correto entrega interpretações memoráveis. A mais recente é o seu dr. Thackery, de “The knick”, a série de Steven Soderbergh que a HBO transmite no Brasil, e que até agora não vem recebendo a devida atenção. De certa forma é compreensível, nem todo mundo quer chegar em casa e assistir ao festival de incisões, sangramentos e mortes devastadoras nas mesas de operação deste hospital nova-iorquino do começo do século XX. Mas, para quem tem estômago forte, se interessa pelo efeito das transformações tecnológicas na medicina e a reorganização social das grande metrópoles no século passado; para quem se deleita com bons roteiros e boas atuações, é programa garantido.

ps. vale observar duas dinastias em ação: Eve Hewson, filha de Bon Vox; e Maya Kazan, filha de Elia, o grande cineasta.

Cópia mal feita

Versões, com raras exceções, sempre me decepcionam. Se temos o original… não é verdade? Mesmo assim ontem assisti “Olhos da justiça”, a adaptação norte-americana do argentino “O segredo de seus olhos”, de Juan Campanella, que venceu o Oscar de filme estrangeiro em 2010. O filme do Campanella era um acerto. Talvez o mais bem acabado exemplo do que os argentinos vêm fazendo em audiovisual nas últimas décadas, engendrando com talento regras básica do thriller: ritmo, climas, atmosfera e algumas cenas filmadas com esmero raro. É tudo o que não se encontra em “Olhos da justiça”: um roteiro frouxo, mal desenvolvido, norteado por uma incapacidade aguda de conduzir as tensões que antecedem o desfecho. E como brinde, mais uma interpretação brilhante do robô Nicole Kidman, esse equipamento que Hollywood inventou para substituir a promissora atriz australiana de “Dead calm”.


Dois grandes filmes que você não viu porque as telas estão ocupadas por bobagens

No FDE com Tarcísio Meira e Kiko Mascarenhas no final do mês passado, comentei rapidamente sobre o inglês Tom Courtenay, veterano grande ator inglês que fora indicado ao Oscar no começo dos anos 1980 pelo papel que o Kiko faz hoje no teatro (o papel do Tarcisão era simplesmente de Albert Finney, também indicado). Falei do Courtenay ainda impactado por “45 anos”, essa pérola que ele faz ao lado da deslumbrante Charlotte Rampling. O filme, que deu aos dois o prêmio de atuação em Berlim no começo deste ano, ainda está em cartaz (ao menos no Rio e em São Paulo), mas provavelmente você não deve tê-lo assistido. Afinal, nossas telas (só um insensato como eu ainda acha que as telas são dos cinéfilos) estão tomadas de heróis adolescentes e comédias nacionais medíocres feitas com isenção fiscal, e esse é um drama (argh!) sobre gente madura (arghhhh!) que tem dores físicas e emocionais (que horror!) e mesmo assim consegue seguir com a vida.

Drama de outra ordem, mas igualmente premiado (levou a Palma de Ouro neste ano), “Dheepan” tem lá seu papel premonitório em relação aos ataques de Paris, dando a ver os subúrbios nada glamorosos constituídos em torno da cidade. Num conjunto habitacional que lembra muito aberrações como os Cingapuras de Paulo Maluf, três refugiados da guerra civil do Sri-Lanka tentam dar novo significado (Deephan trata-se de um nome emprestado de um dos personagens) à existência, enquanto procuram inserir-se numa sociedade que, abaixo da casca de civilidade, ferve. É mais um grande filme de Jacques Audiard, de “O profeta”, que me parece atualmente o diretor francês mais atento às tensões desta nova França miscigenada.