Arquivo da categoria: Clube do Livro CBN

A arte da rivalidade

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É feito de fricção o trabalho artístico. Comparações, mestres que apontam caminhos e então são desprezados; parceiros de geração que nascem como amigos e tornam-se inimigos. Admirações perenes, emoções violentas que habitam o ofício da arte; relações que, como o espelho de Dorian Gray, aprisionam por vaidades nunca sublimadas. Essa é matéria do excelente “A arte da rivalidade”, do crítico Sebastian Smee, de que tratei no Clube do Livro de hoje. A história de quatro relações afetivas entre alguns dos maiores gigantes da arte moderna.


Uma noiva jovem espera e deseja

Baricco

A Noiva Jovem é uma menina, e em seu entorno o Pai, a Mãe e a Irmã de seu noivo ausente irão educá-la. Uma educação antes corporal que sentimental. Em paralelo, Alessandro Baricco inventa um narrador que também observa o próprio corpo se esvair enquanto escreve essa história. Nesse mundo paralelo, criado pela imaginação prodigiosa deste grande autor italiano, o que parece absurdo é mais como o lado interno da vida; escrito pelo desejo e pelo não dito, por esperas e certezas inexplicáveis, tecidos pela trama da ficção.

Tratei de A noiva jovem no Clube do Livro de hoje. 


O Império do Branco

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Não fosse a obsessão humana e seguiríamos nas cavernas, acuados diante do esplendor do mundo. De um monte branco de argila se fez arte, da combinação de desejo e engenhosidade conta-se a história. A história aqui é a jornada da porcelana da China ao Ocidente. Mas o que Edmund De Waal, um dos mais instigantes autores de não-ficção da atualidade, conta em seu “O caminho da porcelana” é uma jornada de obsessões. A dele, ceramista premiado, em busca das origens do próprio ofício. E, acima de tudo, a busca científica, a combinação de genialidades, de campos do conhecimento que se misturaram para inventar no Ocidente o que os chineses exercitavam há mil anos. Leibniz, Goethe, Espinoza e Newton conversam como se dividissem a mesma mesa. De Waal lhes dá vida e voz enquanto tenta explicar a si e ao leitor o caminho do conhecimento.

Tratei mais de “O caminho da porcelana”no Clube do Livro desta semana.


Uma gozação e tanto

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Há autores forjados no ofício de descrever amplas paisagens, revelar complexas tensões sociais, esmiuçar as engrenagens da história posta em movimento. Outros se aventuram na difícil, e muitas vezes desprezada, tarefa de contar pequenas histórias. Passagens domésticas, a vida que habita a mente de personagens que parecem desinteressantes quando expostos a este mundo em que tantos desejam encenar vidas de aparência espetaculosa. Não há nenhuma garantia na arte da ficção que um Napoleão dê vida a páginas mais impactantes que um sapateiro. Toda vida importa, toda vida pode ser extraordinariamente interessante. É esse o registro do italiano Italo Svevo. Histórias pequenas, a tratar de um reduzido grupo de personagens, aparentemente tolos e banais. Seu “Uma gozação bem-sucedida”, tema do Clube do Livro desta semana, opera nesse registro. No dia do armistício de 1918, na agora italiana Trieste, um caixeiro-viajante, Enrico, prega uma peça em seu amigo Mário, um literato tão sonhador quanto presunçoso. A partir daí, o que decorre, além de uma série de confusões e humilhações, é a constatação dura (e todos nós em maior ou menor grau a carregamos) de que as fantasias confessadas aos nossos travesseiros muitas vezes não deveriam nunca serem vividas em voz alta.


O Papa e Il Duce

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Em 1922, um ex-bibliotecário e um ex-socialista chegam ao poder na Itália. O primeiro, agora nomeado Pio XI, passa a comandar a Igreja Católica Romana; o segundo, transformado em Il Duce, como Primeiro-Ministro. Nos anos seguintes, a trajetória desses dois homens, separados pelas pontes que cruzam o Tibre, irão se aproximar, unindo-se num projeto de poder que avançará e dará nova configuração à jovem nação unificada italiana. Os fascinantes bastidores da relação entre a Igreja Católica e o Partido Fascista no período entre guerras são explorados em detalhe pelo historiador David I. Kertzer, em seu O Papa e Mussolini – a conexão secreta entre Pio XI  e a ascensão do fascismo na Europa, tema do Clube do Livro de hoje.

 


Antes da queda, de Noah Hawley

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Um jatinho particular se espatifa no mar com onze pessoas. Duas sobrevivem depois de uma jornada épica. A narrativa se abre. Quem eram aquelas pessoas? O que faziam?, o que fizeram?, quais seus desejos e medos profundos?; o que os unia? E. Já que se trata aqui de uma história de milionários, que histórias subterrâneas habitam suas biografias? Será que elas podem dar conta de explicar o que parece ter sido acidental?

Essas são perguntas lançadas por Antes da queda, narrativa eletrizante do roteirista e romancista Noah Hawley, em que as imbricações entre artes, finanças e o entretenimento televisivo são a porta de entrada para discutir ética e poder num mundo globalizado.

Tratei do romance de Hawley no Clube do Livro dessa semana.


Uma mulher melhor que seu tempo

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Professora, recepcionista, telefonista, faxineira, a americana Lucia Berlin migrou de profissões (profissões que mulheres da sua geração eram permitidas ocupar), trocou de maridos, de cidades, e em meio às turbulências e inquietudes de uma personalidade que não cabia em papéis predeterminados, escreveu uma obra rica, complexa, com tipos únicos, exprimindo uma sensibilidade que ora emociona, ora pinta um sorriso nos lábios. Redescoberta mais de dez anos após sua morte, virou um pequeno fenômeno literário. Agora ela chega por aqui, numa edição recém lançada, de que tratei no Clube do Livro desta semana.