Arquivo da categoria: Clube do Livro CBN

Contemporâneos, extremamente diferentes

No Clube do Livro das últimas semanas tratei do francês Max Jacob, cujo inédito “O gabinete negro”está saindo no país e de Franz Kafka em nova tradução de alguns de seus principais contos. 

Nascidos com menos de uma década de diferença, suas trajetórias não poderiam ser mais diversas, reforçando a pluralidade do imenso fluxo criativo que tomou a Europa entre o final do século XIX e começo do XX. Jacob, sobretudo poeta, é figura central  da geração das vanguardas que ocuparam Montmatre e Montparnasse, em Paris. Amigo e retratado por Picasso e Modigliani, estabelece-se como um ator social importante daquele período. Kafka, recluso e de circulação muito mais restrita em seus anos de vida, fez da investigação de suas próprias vivências (familiares, religiosas, sociais) material de sua obra magnífica.

Resta aqui um ponto de contato que os aproxima em chave dramática. Jacob, de origem judaica, converte-se ao cristianismo, dedica-se à vida monástica, mas não escapa da Gestapo. Kafka, que não chegou a testemunhar a ascensão de Hitler, lega ao amigo Max Brod a incumbência de destruí-la. Como sabemos, Brod o desobedece, escapando para a Palestina e possibilitando a nós, leitores deste século, possamos ter acesso a seus escritos.  Exemplos práticos do copo de dados da existência tão bem registrado por Jacob em uma de suas obras mais importantes.

 

 


“O túnel”, de Ernesto Sabato

sabato

Nesta semana tratei no Clube do Livro CBN, do livro de férias, o primoroso “O túnel”, do argentino Ernesto Sabato.

A biografia de Sabato, por si só, já daria uma história saborosa. Físico talentoso, passou por Paris e pelo IMT antes de ser tomado por uma crise vocacional. Largou tudo para morar numa casa pequena fora da cidade e dedicar-se à escrita. “O túnel” é resultado desse processo, mas nenhuma editora argentina topa publicá-lo. Acaba sendo acolhido pela revista Sur, de Victoria Ocampo, fundamental para fixar a ideia de literatura argentina que guardamos em nossas mentes.

“O túnel”trata de um crime passional, narrado pelo assassino, Juan Pablo Castel, que se propõe a contar “com inteira imparcialidade”o processo que o levou a tirar a vida de sua amante, Maria Iribarne. Estruturado em 39 pequenos capítulos, que internalizam uma forma de aparência simples, mas de feitio extremamente sofisticado, o que se oferece ao leitor é um profundo estudo sobre os mecanismos da mente, da vida que se passa na consciência enquanto são encenados os atos do mundo. Existencialista e desalentado, trata-se de uma crítica feroz à própria condição humana.

 

 


Frida Kahlo recepciona Trotsky no México

trotsky

No Clube do Livro desta semana tratei de Viva!, em que o francês Patrick Deville reconstitui os últimos anos da vida de Trotsky, a partir de sua chegada ao México, naquele momento transformado em pólo de atração de artistas e revolucionários.


Drummond, Suassuna e Pirandello

Drummond

Tratei nessas últimas semanas no Clube do Livro de três lançamentos importantes nesta reta final de 2017. Uma forma de saudade, que reúne parte do diário do poeta Carlos Drummond de Andrade; Romance de Dom Pantero no palco dos pecadores, inédito póstumo de Ariano Suassuna; e de Pirandello em cinco atos, coletânea de peças inéditas do Nobel italiano.


O homem que amava os livros

Zahar

A história do livro é vasta, intrincada, fascinante, sugando para dentro de seus meandros sinuosos os mais diversos campos do conhecimento, atraindo escritores e teóricos da literatura, tanto quanto historiadores e sociólogos. Editores são parte fundamental nesse processo de escolha e co-autoria (tantos são os livros que nascem do diálogo estabelecido entre o autor e aquele que o publica). Em tempos em que editoras se comportam como engrenagens burocráticas do capitalismo globalizado e anódino, é uma sorte conhecer a trajetória de um personagem como o fluminense Jorge Zahar, que mais do que batizar a editora que é referência no campo das humanidades no país, construiu uma das mais instigantes carreiras da história do livro no Brasil. O belo trabalho de Paulo Roberto Pires, mais do que organizar a trajetória do editor, funciona como um amplo painel do longo e complexo processo de profissionalização dos negócios editoriais no país. Um negócio em que paixões e intuições tantas vezes são mais certeiras do que planilhas e manuais de gerenciamento. Tratei de A marca do Z, biografia de Jorge Zahar, no Clube do Livro desta semana.


Um gato viaja, um homem se despede

Hiro ArikawaHomem solitário alimenta gato. Homem solitário cuida de gato ferido. Homem solitário adota gato. Convivem. Homem não mais solitário e gato viajam pelo país. Eis o preâmbulo de Relatos de um gato viajante, da japonesa Hiro Arikawa, de que tratei no Clube do Livro desta semana. Dando prosseguimento a uma longa tradição de gatos personagens, Arikawa relata uma bela aventura íntima que, construída com aparente simplicidade, oferece uma profunda reflexão sobre os afetos e a reconciliação com a própria história.


Vinicius, todo Vinicius

vinicius-de-morae

Tratei no Clube do Livro de hoje da obra de Vinicius de Moraes em dois projetos organizados pelo poeta e crítico Eucanaã Ferraz. A caixa com dois volumes que cobrem toda produção literária (poemas, prosa e teatro) e o cancioneiro de Vinicius, e Todo amor, coletânea que percorre crônicas, poemas, cartas e letras de canções do escritor em que o amor é tematizado.


Lydia Davis e a arte de transformar o pequeno em maravilhoso

Davis

No último Clube do Livro, tratei do lançamento no Brasil de Nem vem, coletânea de narrativas breves da norte-americana Lydia Davis. Davis criou uma espécie de gênero híbrido entre o conto curto, o insight e a anotação. Recorta das origens mais diversas – o sonho, uma ficção de Flaubert, a observação cotidiana – pedaços de vida, recombinados por meio da linguagem. Relações familiares, afeto por animais, a psicologia de um personagem, as pequenas manias de cada um de nós. Em tempos acelerados como estes, o amplo mosaico de pequenas grandes histórias de Davis é um alívio e um contentamento.


Ishiguro, Nobel de Literatura

IshiguroKazuoAntes de chegar ao autor, é preciso entender o tempo em que ele foi gerado. Algo de muito importante aconteceu no início dos anos 1980 no Reino Unido. Uma intensa força criativa que reverberou profundamente nas artes e nos costumes. A música pop foi a cabeça dessa cobra cheia de eletricidade; a literatura seu corpo robusto. Kazuo Ishiguro é filho dessa época. Embora mais convencional na forma e no temperamento, irá surgir como um dos rostos da famosa edição da revista Granta, em 1983, que se propunha publicar os melhores autores ingleses com menos de quarenta anos. Martin Amis, Julian Barnes e Ian McEwan são alguns outros nomes. Dois anos antes, Salman Rushdie havia lançado Os filhos da meia-noite. Como se vê, o sangue dessa Inglaterra conservadora até o pescoço seco de Margareth Thatcher, era híbrido, misturando filhos de antigas colônias como Rushdie, imigrantes orientais como Ishiguro e gente como Amis, cujo pai era uma pedra robusta do antigo cânone literário inglês. É provável que o júri não tem pensado em nada disso quando elegeu um autor para contrapor a conturbada opção por Bob Dylan. Talvez tenha simplesmente pinçado um escritor estabelecido num dos maiores centros literários mundiais, capaz de ofertar um repertório de obras heterogêneas em sua temática e com imensa maestria das ferramentas de narrar. Quem sabe – se a fantasia ainda é permitida – hoje à noite confessem a seus confortáveis travesseiros suecos não conseguir esquecer a determinada contenção do mordomo Stevens, a quem pouquíssimos leitores são capazes de imaginar sem o rosto de Anthony Hopkins, ou as terríveis revelações que atingem os amigos Kathy, Ruth e Tommy, em sua dolorosa perda da inocência.

Espero que seja assim, e se for, a escolha de Ishiguro foi muito acertada.

Aqui meu comentário no Clube do Livro CBN.

Aqui, tratei de Não me abandone jamais, no Livro do Mês.


Lady MacBeth reencarna numa Rússia sangrenta

Leskov

O tédio é a substância dos dias de Catierina Izmáilova, casada com um rico comerciante estéril e ausente. Entre a solidão e os sons da natureza que preenchem seus minutos, seus segundos, a novidade – o arroubo, o que a vida traz de inesperado – personifica-se em Serguiêi, um jovem e belo capataz da fazenda.

Uma história idílica se apresenta?

Não, nada disso.

O que essa relação intensa, na carne e na mente, irá engendrar é o horror.

É esse o território da impressionante novela Lady MacBeth do distrito de Mtzensk, de Nicolai Leskov, de que tratei no Clube do Livro desta semana.

Publicado há mais de 150 anos, numa revista editada por Dostoiévski, e disponível para nós brasileiros, na tradução do craque Paulo Bezerra, é obra incontornável para quem a literatura é mais do que um passatempo.