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A cidade de origem

Que cidade é esta, que repentinamente acontece diante dos meus olhos?

Caminho a rua percorrida a cada dia. Quase nada reconheço. Apenas um homem barbado que diz frases desconexas. Não fixa seus olhos em nada, em nada que eu também veja. É o mesmo homem de sempre? Como, se percebo as chagas infeccionadas em seu rosto? Se não há como não reparar a ausência de uma perna, é possível ser o mesmo homem de ontem? Um homem aparentemente sadio? É possível que as chagas tenham se instalado durante a noite? Uma noite tétrica em que uma perna foi amputada? Ou, será que essa é uma nova cidade. Reflexo da primeira. Reflexo num espelho a refletir uma outra uma outra uma outra, infinitamente? Um cidade fraturada?

Sigo para estação, aguardo o trem. O mesmo trem de todos os dias. O dia, porém, é outro, a paisagem tem cores e sons diferentes.

Que cidade é esta? Penso, e embarco.

Enquanto viajamos – uma viagem que liga cidades –, ouço o canto dos pássaros que seguem o trajeto. Sinto os sons nítidos, próximos. Meus ouvidos tomados, invadidos, desejam ver. Concentrado, encontro sua origem: numa das saídas do vagão, um pai joga pão ao seu filho. Um menino-pássaro, engaiolado, ávido ao mastigar as migalhas enquanto gorjeia.

O trem pára repentino e devolve-me à vida, ao tempo. É preciso andar no ritmo da cidade. É preciso alcançar o mesmo prédio de todos os dias. Mas diminuo o ritmo de meus passos. Estanco. Olho ao redor. Há um telefone público e agora devo chamar. Disco um número conhecido. Um toque, dois toques, três toques. Me alivio. Quarto toque, quinto toque, mais um e desligarei, retornando recomposto ao fluxo dos dias. Antes do derradeiro momento, a ligação é atendida. Minha voz, sonolenta, surge do outro lado da linha.

Contrariado retorno à cidade de origem.


Vendi meu carro japa e me mandei pro Japão

Quimono2
Vendi meu carro japa e me mandei pro Japão. Melhor negócio da vida. Vendi meu carro japa vintage. Hoje, qualquer coisa com mais de três anos é velha, com mais de dez tá na moda. Eu sou vintage, mas não estou na moda. É um museu de grandes novidades, disse o Cazuza um quarto de século atrás. Hoje, um quarto de século vale mais que um século há um século atrás. É a diferença entre o analógico e o digital. Vendi meu carro pra ser analógico, pra ser um negativo. Pra ser do contra, ser um daqueles que não somam, mas diminuem. Pra não fazer parte da frota. Pra ser da frota dos pés-no-chão. Vendi meu carro japonês pra andar de metrô no Japão. Pra andar de trem no Japão. Pra disparar como uma bala que não mata no trem bala do Japão. E pra tomar banho quente. Banho de balde, banho de ofurô. Campai! Vendi meu carro japonês pra nunca mais sair do ofurô. Pra morar no ofurô e me alimentar de saquê. Campai! E nunca mais usar um garfo na vida. Para andar de tamanco e vestir quimono. Vendi minha caranga japa pra andar de quimono. Pra receber as visitas de quimono. E cruzar as pernas elegantemente. Dar a ver meus belos tamancos. A pele boa das minhas canelas curtidas na água quente do ofurô. A pele boa das minhas bochechas curtidas pelo saquê. Campai! Cruzar as pernas elegantemente em lótus. Sem assessórios, vidro elétrico, banco de couro. Sentar no zafu. Apenas sentar. Sentar em lótus e fazer parte de uma sangha. E brincar o shabu-shabu. É gostoso falar shabu-shabu. Dá vontade de convidar alguém para dançar com a gente. Mesmo que o shabu-shabu se faça sentado, com os pés soltos, sem tocar o chão. Dançar bem é como não tocar o chão. Brincar o shabu-shabu também. Mas o shabu-shabu é silencioso, não fosse o suga-suga do caldinho. Vendi meu carro japa e me mandei. Mas já estou de volta, desenhando cones coloridos nas vagas dos automóveis.


Estábulo

Sabe-se lá porque era assim, mas era. Ele, um som, uma banda inglesa de new-bossa (estamos nos anos 1980). Ela, um cheiro doce, baunilha nas narinas. A cidade pequena e sem ventos, manchada por poças no asfalto. Antes do mundo freado à base de ansiolíticos, os corações tocavam bumbos disparados. Não se sabe ao certo por que era assim, mas, de certo modo, era o único modo de ser. Ela, a venda de rendinha rosa nos olhos, suspira: “você podia me fazer feliz pelo menos ao longo desse dia”. Ele mudo. O silêncio pairando. Uma rajada repentina traz a música (aquela banda new-bossa dos anos 1980), ela soletra: es tá bu lo; es tri bi lho! Grita excitada. “O que falta pra nós é o inefável”, diz, enquanto solta a venda e segura firme o queixo dele, desenhando com o indicador sua boca selada. “O que falta pra nós”, mas não prossegue, sua mão estanca na calosidade do pomo de adão não barbeado. “Você já reparou?”. Ele mudo. “O que há de mais perfeito em você é seu pescoço, é como um baú de guarda das suas cordas vocais”. Fica então em silêncio, como simplesmente o observasse, mas não dura muito. “Assim como essa tarde”, ela retoma, “sua boca muda preserva promessas não realizadas, nos aparta da dimensão diária do absurdo”. Ele ri e com um nó de marujo prende suas pernas.


Trova

Meu lugar comum é a dúvida

Minha quitinete, um galpão de incertezas

Sou o ajudante de mágico que,

por vontade própria, segue cerrado ao meio.


Comentário que não coube no Instagram

Eu os observava. Abraçados. Beijos acalorados em meio à rodoviária lotada. A segunda-feira nascendo lentamente: remelas, bocejos, os dois lá em seu universo paralelo.

Ela, com uma imensa mochila nas costas, um palmo mais alta que ele, prestes a partir. Ele mais parecia um garoto, metido em bermudas e camisetas, uma impressão que seu rosto logo desmentia. Sua pele era branca e imberbe, cheia de sulcos que pareciam cerzidos pelo tempo ou pelos acontecimentos.

O ônibus também tinha suas vontades, e diferente dos homens, uma rota que a cumprir sem desvios. Era o seu destino romper laços, apartar afetos. Assim tinha de ser e foi. Dançaram sua dança silenciosa uma última vez e ela passou a roleta.

Em pouco tempo já estava instalada, o rosto colado à janela. Acenava com graça, com a ponta dos dedos soltos tocando o vidro. Ele acenava de volta, sem jeito, com o punho rígido, mas era pouco para ele. Conversou com o fiscal da roleta. Nem era preciso ouvir o que dizia. O fiscal sorriu, mas nada feito. Voltou a acenar. Faziam então sinais incompreensíveis aos que, como eu, acompanhavam sua encenação. Um código próprio, pensei, a que eu não tinha acesso, mas logo seus passos largos e ritmados me distraíram. Seguiu em direção a uma nova roleta, que até então todos parecíamos desconhecer. Um riso nervoso tomou-lhe a boca depois da segunda negativa.

Por um tempo pareceu desistir, abrindo espaço para os meus desejos. Minutos depois eu estava de volta com biscoitos e água para a longa viagem. O ônibus deles ainda estava lá, os retardatários a embarcar; do meu nem sinal. Nenhum sinal dele também, observei, pensando que enfim desistira. Saquei a câmera da mochila e revi as últimas imagens no visor. Centenas de registros que bem poderiam nunca ter sido feitos. Apontei para a plataforma, para o pátio que ocupava os fundos da estação, como se pudesse naquele instante derradeiro captar algo que atendesse às minhas expectativas, mas tudo que a lente filtrava era uma matilha de cães macérrimos e um grupo de motoristas descansando em bancos de compensado. Nenhum deles me interessou. Ampliei o zoom em busca de um detalhe que escapasse ao olho humano, que escapasse aos meus preconceitos. Mas nada era capaz de me surpreender. Meus dedos já diminuíam a aproximação, e eu estava prestes a devolver a máquina à mochila, quando vi um corpo se esgueirando, ao lado dos motoristas entediados, escapando por uma fenda minúscula. Era ele. Seu tronco parecia ter encolhido, como se no tempo em que desaparecera tivesse sido guardado numa caixa. Espremia-se entre dois portões, se arrastando em gatinhas. Vencida aquela barreira, que deveria servir apenas para conter os cães, ziguezagueou entre os ônibus até se aproximar do destino que eu, que todos, antevíamos. Não precisava mais da câmera para vê-lo logo ali, sorrindo para o motorista que controlava o embarque, sussurrando alguma coisa e seguindo para as entranhas do veículo.

A cabine mal iluminada só me permitia ver os vultos. Dois corpos abraçados vivendo sua impossível epifania. Ainda me sinto feliz por não fotografá-los.