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Vendi meu carro japa e me mandei pro Japão

Quimono2
Vendi meu carro japa e me mandei pro Japão. Melhor negócio da vida. Vendi meu carro japa vintage. Hoje, qualquer coisa com mais de três anos é velha, com mais de dez tá na moda. Eu sou vintage, mas não estou na moda. É um museu de grandes novidades, disse o Cazuza um quarto de século atrás. Hoje, um quarto de século vale mais que um século há um século atrás. É a diferença entre o analógico e o digital. Vendi meu carro pra ser analógico, pra ser um negativo. Pra ser do contra, ser um daqueles que não somam, mas diminuem. Pra não fazer parte da frota. Pra ser da frota dos pés-no-chão. Vendi meu carro japonês pra andar de metrô no Japão. Pra andar de trem no Japão. Pra disparar como uma bala que não mata no trem bala do Japão. E pra tomar banho quente. Banho de balde, banho de ofurô. Campai! Vendi meu carro japonês pra nunca mais sair do ofurô. Pra morar no ofurô e me alimentar de saquê. Campai! E nunca mais usar um garfo na vida. Para andar de tamanco e vestir quimono. Vendi minha caranga japa pra andar de quimono. Pra receber as visitas de quimono. E cruzar as pernas elegantemente. Dar a ver meus belos tamancos. A pele boa das minhas canelas curtidas na água quente do ofurô. A pele boa das minhas bochechas curtidas pelo saquê. Campai! Cruzar as pernas elegantemente em lótus. Sem assessórios, vidro elétrico, banco de couro. Sentar no zafu. Apenas sentar. Sentar em lótus e fazer parte de uma sangha. E brincar o shabu-shabu. É gostoso falar shabu-shabu. Dá vontade de convidar alguém para dançar com a gente. Mesmo que o shabu-shabu se faça sentado, com os pés soltos, sem tocar o chão. Dançar bem é como não tocar o chão. Brincar o shabu-shabu também. Mas o shabu-shabu é silencioso, não fosse o suga-suga do caldinho. Vendi meu carro japa e me mandei. Mas já estou de volta, desenhando cones coloridos nas vagas dos automóveis.


Japão

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Barthes, em seu livro-tributo ao Japão, “O império dos signos”, descreve que “a massa rumorosa de uma língua desconhecida constitui uma proteção deliciosa, que envolve o estrangeiro (desde que o país não lhe seja hostil) numa película sonora”. Como nem mesmo por um instante a sombra da hostilidade pairou sobre os meus dias no Japão, só posso dizer que, protegido por essa película das pequenas conversações diárias, só me restou percorrer o Japão como uma criança ávida em decifrar o mundo.
Viajar ao Japão é ser confrontado a todo momento por nossos pré-conceitos. A todo momento desejamos verbalizar, com explicações adquiridas ao longo da vida, o que vemos, sentimos. Se o Brasil não foi feito para principiantes, como dizia Tom Jobim, o Japão não foi feito para quem viaja para confirmar seus próprios equívocos.
É um esforço, algo que vai contra a tendência do turismo massificado, com sua estratégia de check-list.
Tóquio, por exemplo, é cidade imune a listas. Sim, você pode visitar o mercado de peixes em Tsukiji, ou comer num dos grandes restaurante de sushi. Pode visitar o Edo-Tóquio Museu ou o parque Ueno atrás de suas cerejeiras (uma sorte deste viajante). Você pode fazer tudo isso, mas Tóquio, sorrateiramente, irá lhe escapar.
Primeiro, como bem aponta Barthes, porque a cidade não tem centro. Este lugar cabe ao Palácio Imperial, uma parque imenso, repleto de água, vegetação, com boa parte de sua área fechada a visitação. Segundo, pois se o Centro é difuso, o que dirá o delírio espacial de uma cidade escalonada em camadas? A cidade que existe sob seus arranha-céus, onde trens e restaurantes se cruzam. A cidade das estações multiplataforma (trens locais, para o subúrbio, metrô), onde coexistem restaurantes excepcionais com bimbocas de lámen a 5 dólares, sem contar boulangeries que fariam um parisiense salivar.
Tóquio é a cidade onde achar um endereço mais se assemelha a completar um Lego monumental: você sempre tem um mapa à mão, um nome anotado, o primeiro dia do novo aluno repleto de lembretes maternais.
Assim eu me sentia a cada dia, uma versão grisalha e calva do menino que um dia fui. Acho que por isso comi tantos doces e frequentei tantos templos em busca de uma centelha do sentido da vida.