Arquivo da categoria: Livro do mês

Assim começa o mal, de Javier Marías

marias 2Nos primeiros anos após a morte do ditador Franco, a Espanha mergulha numa época de euforia e hedonismo, de liberação do corpo e dos costumes. Um novo tempo que convive com as marcas da longa noite de quatro décadas com sua maciça repressão e patrulhamento. Como conciliar esses dois tempos? Que história (e quem a conta) irá se fixar como verdade, como relato oficial? O que deve ser esquecido, o que sempre deve ser lembrado? E a partir dessas escolhas, qual seu efeito sobre as histórias coletivas e privadas. Essas questões permeiam o amplo arco narrativo do primoroso de Assim começa o mal, do espanhol Javier Marías, Livro do mês do Clube do Livro CBN. Longo relato (de som e fúria) de um ex-assistente de um conhecido diretor de cinema, que relembra aqueles anos 1980, e sua próxima e profunda relação com aquele tempo e seus persongens mais próximos.

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Santinhos no Texas

BerlinJá falei de Lucia Berlin aqui, e de sua seleta de contos Manual da faxineira. No Livro do Mês do Clube do Livro CBN analiso com um pouco mais de detalhamento uma de suas peças. Tratei de “Estrelas e santos”, construção típica do estilo de Berlin, exploradora das fronteiras nebulosas da autobiografia e da ficção. Uma narradora retoma uma passagem da infância. Um colégio católico no Texas, uma garota protestante, vinda de uma família disfuncional. Mal entendidos, inveja, bullying e religião se misturam no caldeirão. O tom de Berlin é autoirônico, espirituoso, como se não levasse tão a sério as seríssimas circunstâncias da vida. Para os ouvidos mais atentos, Berlin narra como a vizinha exótica que nos conta suas histórias numa tarde de verão regada a álcool e afeto.


Os caminhos da liberdade no sul escravocrata

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A Ferrovia Subterrânea era uma metáfora, mas Colson Whitehead deu-lhe materialidade por meio de sua imaginação. Não se contentou com postos de refúgio em fazendas e propriedades no sul dos Estados Unidos, necessitou de trilhas e locomotivas para contar sua história. The underground railroad – os caminhos para a liberdade, Livro do Mês do Clube do Livro CBN, trama sua narrativa por meio dessa rede de fraternidade, que auxiliou escravos em fuga a escapar do sul escravagista. É nela que Cora, sua protagonista, irá experimentar em sua carne o horror de ser um negro na América. Perseguida por um caçador de recompensas, acoitada pelas memórias da mãe fugitiva, Cora irá experimentar o pior e o melhor que o gênero humano é capaz de produzir, em sua aventura repleta de idas e vindas em direção ao utópico Norte do continente.


“A fantástica vida breve de Oscar Wao”diverte e assombra

Junot Díaz

Duas rotas correm em paralelo na terna e hilária narrativa “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, de Junot Díaz. É impossível não se divertir com as peripécias de Oscar, um geek, de origem dominicana, que vive num subúrbio de Nova Jersey (para ser exato em Paterson, cidade-ícone na literatura americana de que falei aqui). Seu amor pela chamada baixa cultura (será que ainda devemos validar esse tipo de etiqueta?), sua obsessão por Tolkien e acima de tudo em encontrar um amor, comovem e divertem. Já teríamos aí um livro, mas há um segundo, mais denso, profundo e cruel, protagonizado pelas mulheres de Oscar: sua mãe e sua irmã. Principalmente a mãe, Beli, e a trajetória que a leva de Santo Domingo para os Estados Unidos.

Esta América, que dá corpo e voz aos Estados Unidos contemporâneos, e que o demente Trump imagina que possa represar com um muro físico, reencena a história que não se repete como farsa nos países abaixo da Flórida, mas como tragédia. Uma tragédia, em muitos momentos engendrada ou financiada por interesses norte-americanos, e protagonizada por ditadores – no caso dominicano, Trujillo – sanguinários. Unir essas rotas num único volume, faz do primeiro romance de Díaz, que ganhou o Pulitzer de ficção em 2008, um risco e um assombro.

Tratei de “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, no Clube do Livro CBN de hoje.


Profundas feridas do Apartheid

Desonra

Resenha nenhuma é capaz de dar conta das infinitas possibilidades de leitura de Desonra, do sul-africano J.M. Coetzee, livro deste abril no Clube do Livro CBN. O choque entre civilização e barbárie na África do Sul pós-apartheid, talvez seja a mais óbvia porta de entrada. Mas há mais. Muito mais. Questões morais, expiação não-religiosa; revanche num país em que as feridas de origem são profundas demais. A escrita de Coetzee é como sempre límpida, profunda, envolvente. Suas ideias são claras, o conteúdo de suas ações explosivo. Não tenho prurido em afirmar se tratar do romance mais importante escrito nos últimos vinte anos. Leiam e façam suas apostas. Aqui o papo de hoje no Clube do Livro.


“Stoner”, de John Williams, leitura incontornável

stonerO que há de mais primoroso na prosa de John Williams, autor deste Stoner, livro de férias do Clube do Livro, é sua capacidade de, lentamente, por meio de um trabalho minucioso de construção literária, revelar o aprofundamento da vida de seu protagonista – as diversas camadas de seus interesses, paixões e decepções. Oriundo de uma humilde família de pequenos proprietários rurais no Missouri, William Stoner chega à universidade em 1910, para cursar Ciências Agrárias, com o objetivo de se preparar para auxiliar seus pais. O rompimento dessa trajetória esperada, seduzido pela paixão literária e o incentivo de um professor-mentor, é o momento central nessa vida que será deslindada magistralmente pela prosa de John Williams. Página a página, acompanhamos o desenrolar de sua carreira acadêmica e de sua vida pessoal, e a partir dessas relações, tão próximas a qualquer um de nós – colegas, superiores, estruturas burocráticas, pais, filhos –, algo de assombroso vai se revelando: uma percepção profunda sobre o arco da existência, dos limites da vontade e do temperamento, do enfrentamento entre o homem e o mundo. É difícil dizer mais – e eu, imprudente, digo mais no Clube do Livro de hoje – sem ter que recorrer a trechos da obra, mais adequados do que a capacidade de analisá-la. Então encerremos assim, com uma passagem, que, espero, sirva de porta para uma leitura mais prolongada:

“Os colegas de Stoner, que não o tinham em grande estima quando vivo, quase nunca falam dele agora; para os mais velhos, o seu nome é um lembrete do fim que aguarda a todos, e para os mais jovens é só um som que não evoca nenhuma sensação do passado e nenhuma imagem específica na qual eles consigam se reconhecer ou à qual possam associar suas carreiras (…)”


Livro do mês: Uma breve análise de “Bonita Avenue, de Peter Buwalda