Arquivo da categoria: Livro do mês

“Stoner”, de John Williams, leitura incontornável

stonerO que há de mais primoroso na prosa de John Williams, autor deste Stoner, livro de férias do Clube do Livro, é sua capacidade de, lentamente, por meio de um trabalho minucioso de construção literária, revelar o aprofundamento da vida de seu protagonista – as diversas camadas de seus interesses, paixões e decepções. Oriundo de uma humilde família de pequenos proprietários rurais no Missouri, William Stoner chega à universidade em 1910, para cursar Ciências Agrárias, com o objetivo de se preparar para auxiliar seus pais. O rompimento dessa trajetória esperada, seduzido pela paixão literária e o incentivo de um professor-mentor, é o momento central nessa vida que será deslindada magistralmente pela prosa de John Williams. Página a página, acompanhamos o desenrolar de sua carreira acadêmica e de sua vida pessoal, e a partir dessas relações, tão próximas a qualquer um de nós – colegas, superiores, estruturas burocráticas, pais, filhos –, algo de assombroso vai se revelando: uma percepção profunda sobre o arco da existência, dos limites da vontade e do temperamento, do enfrentamento entre o homem e o mundo. É difícil dizer mais – e eu, imprudente, digo mais no Clube do Livro de hoje – sem ter que recorrer a trechos da obra, mais adequados do que a capacidade de analisá-la. Então encerremos assim, com uma passagem, que, espero, sirva de porta para uma leitura mais prolongada:

“Os colegas de Stoner, que não o tinham em grande estima quando vivo, quase nunca falam dele agora; para os mais velhos, o seu nome é um lembrete do fim que aguarda a todos, e para os mais jovens é só um som que não evoca nenhuma sensação do passado e nenhuma imagem específica na qual eles consigam se reconhecer ou à qual possam associar suas carreiras (…)”


Dostoiévski diante do pelotão de fuzilamento


Livro do mês: Uma breve análise de “Bonita Avenue, de Peter Buwalda


Livro do mês: “Formas de voltar para casa”, de Alejandro Zambra

Zambra

Um murmúrio sutil. Assim é a voz dos narradores do chileno Alejandro Zambra. Em Formas de voltar para casa, livro deste mês do Clube do Livro CBN, ouvimos a história de sua infância, mais especificamente em meados dos anos 1980, num Chile ainda comandado por Pinochet.

Este narrador que parece nos convidar para a sua sala, e que se põe a expor dores e alegrias de sua trajetória, irá espelhar sentimentos de sua geração, sem se deixar permear pelo que sentia a geração de seus pais; é, ao mesmo tempo, ingênuo e consciente do que se passa ou se passou ao seu redor. Lida com essas heranças no presente, tentando encontrar no romance e na vida um forma de existência e de invenção.


As novelas exemplares de Cervantes

Lançado em 1613, entre a primeira e a segunda parte de Don Quixote, o volume Novelas exemplares colide o melhor da prosa de Cervantes. Estão lá seus personagens dotados de imensa imaginação, enredados pela intensa modernidade da Espanha da Era de Ouro. Está lá seu projeto de entreter uma sociedade cosmopolita, desejosa de prazeres literários.

É um Cervantes maduro, aproveitando-se, nos últimos anos de sua vida, de um tardio reconhecimento literário, iniciado pouco menos de uma década antes, mais exatamente em 1605, com a primeira parte do colosso Don Quixote. A década em que concebe e formata sua maior invenção – o romance moderno, com seus anti-heróis que ainda hoje habitam nossas mentes de leitores de ficção.

As doze novelas que compõem Novelas exemplares, e que demoraram apenas quatro séculos para serem traduzidas em sua integridade no Brasil (uma ironia em nada cervantina), são como um pêndulo entre pequenos personagens da sociedade ibérica do período e tramas de imaginação. Entre os primeiros podemos lembrar de Rinconete e Cortadillo, garotos maltrapilhos que peregrinam até tomarem parte numa gangue em Sevilha (onde Cervantes ficou preso por um período). Na segunda turma, há Cipião e Berganza, a dupla de cães que dialogam e discutem em frente ao Hospital da Ressurreição em Valladolid.

Como bem aponta Harold Bloom, aflora na prosa de Cervantes uma espécie de individualidade heroica, que irá conformar as aventuras do homem moderno num mundo que ele próprio inventou.

No Clube do Livro de hoje, comentei um pouco mais as Novelas exemplares de Cervantes.


Clube do Livro – “Americanah”

No Clube do Livro de hoje, o papo adiado sobre Americanah, de Chimamanda Adichie.


Clube do Livro – “O mestre e Margarida”, de Mikhail Bulgákov

Nos anos 1930, uma série de acontecimentos inusitados se passam em Moscou e em outras localidades da União Soviética stalinista. Todos, aparentemente relacionados a uma trupe exótica, capitaneada por um certo professor Woland, que passa a atormentar os membros da elite literária da capital.

Esse seria um resumo, deveras impreciso, desse acontecimento literário chamado “O mestre e Margarida”, livro de férias do Clube do Livro CBN. Acontecimento pela mordacidade de sua crítica alegórica aos horrores da burocracia bolchevique; pela imaginação jubilosa de seu autor Mikhail Bulgákov; mas, acima de tudo, pelas sucessivas camadas que o romance oferece, representando a partir do mais antigo dos antagonismos humanos – o eterno embate entre o bem e o mal – tensões históricas e religiosas, afetivas e profissionais.