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“Beethoven, angústia e triunfo”

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Introspectivo, baixinho, filho de pai alcoólatra, desprezado por conta da cor de sua pele, um fiasco no amor, um catálogo de doenças, e por fim, surdo. Vivendo em condições físicas e emocionais que derrubariam boa parte dos mortais, Ludwig Van Beethoven transformou angústias em massas sonoras repletas de amor e fúria. A colossal biografia do compositor e crítico norte-americano Jan Swafford tenta dar conta dessa personalidade, espelhando obra e vida; reconstituindo página a página a trajetória do jovem que sai de Bonn para mudar o rumos da música em Viena.

No Clube do Livro de hoje tratei do livro de Swafford “Beethoven – Angústia e Triunfo”, que acaba de sair no país.


Clementina, enfim biografada

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Tradição oral, parcamente documentada na bibliografia nacional, afastada do radar diluidor das grandes gravadoras, o cancioneiro de matriz africana, herança direta do longo período de escravidão no Brasil, encontrou na voz potente e única de Clementina de Jesus seu registro mais original. Por sorte, ajuda do destino, faro e ouvidos agudos de Hermínio Bello de Carvalho, ela foi resgatada do Vale dos Desconhecidos para produzir uma carreira extraordinária. Os trinta anos de sua morte, como quase tudo o que se refere à memória, história e cultura no Brasil, restringiram sua herança a poucos interessados. É de saudar com rodas de jongo e partido-alto por todo o Brasil o lançamento de “Quelé – A voz da cor”, bela biografia da cantora realizada (numa outra boa surpresa) por quatro empenhados jovens jornalistas. Essa pérola, que chega ao público nesta semana, foi o tema do Clube do Livro de hoje.


Clube do Livro com o chefe, Bruce Springsteen

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No Clube do Livro de hoje tratei da autobiografia “Born to run”, do roqueiro Bruce Springsteen, que acaba de sair no Brasil. Longo relato sobre a trajetória desse ícone do canção americana.


Clube do Livro com Leonard Cohen e Patti Smith

Tratei hoje no Clube do Livro de dois grandes ícones dos anos 1960 retratados em novos lançamentos. A biografia de Cohen, escrita pela jornalista Sylvie Simmons, e “Linha M”, em que Patti dá continuidade à sua carreira de talentosa memorialista apresentada no aclamado “Só garotos”.


George Martin, produtor

Quem encontrasse George Martin nas floridas ruas de Londres nos anos 1960, dificilmente imaginaria estar diante de um grande artista. George de certo não ajudava os que vivem amarrados a estereótipos. Primeiro porque se vestia como um executivo, segundo porque era um executivo. Sim, ele dirigia o Parlophone, um dos selos da gigante EMI. Músico de formação clássica, virou diretor de gravações, produzindo álbuns de clássico, jazz e esquetes cômicos. Porém, no começo dos anos 1960, faltava ao catálogo artistas da florescente cena da música jovem (uma ideia tão recente quanto excitante). Os Beatles ocupariam esse espaço.

Naquele começo dos anos 1960 nenhuma das principais gravadoras inglesas havia se interessado pela banda de Liverpool (imagine quantos pulsos foram cortados anos depois). Nem mesmo os outros selos da EMI, nem mesmo Martin. Não fosse a insistência do responsável pela editora da companhia, esse encontro simplesmente não ocorreria. Quando as peças se encaixaram, Martin foi de início fundamental na substituição do baterista da banda, e tempos depois em convencer aqueles jovens a usar cordas e orquestrações. Era o começo da revolução, que para esse escriba atinge seu ápice em “Revolver”.

George inventou o som dos Beatles, um grupo com três compositores geniais. Quebrou barreiras entre a música popular e a vanguarda; moldou na canção popular a combustão nervosa de ideias dos anos 1960. Depois de Martin (e alguns de seus contemporâneos, como Spector), produtor musical virou uma profissão.

Não é pouco.

Aqui, “A day in life“, uma de suas maiores contribuições para a música pop.


35 anos sem Lennon

Nureyev, Bernstein e Lauren Bacall, entre outros, em diversas épocas, habitaram o Dakota, mítico edifício construído no final do século XIX num descampado onde hoje pulsa o Upper West Side, em Nova York. Nenhum deles porém, se relaciona a ele de forma mais profunda e trágica do que John Lennon, que deixou o endereço numa maca exatos 35 anos atrás. Lennon e Yoko residiam no Dakota desde 1973, e entre idas e vindas, tentativas de expulsar Lennon do país, shows e discos, construíram parte importante da cultura pop daqueles anos 1970. Depois de gravarem “Rock’n roll”, em 1975, foram precisos cinco anos para voltarem ao estúdio para criar “Double Fantasy”. O álbum foi lançado em 17 de novembro daquele 1980, e a recepção não foi nada boa. As críticas misturavam comentários musicais com questionamentos sobre a estetização do casamento Lennon-Ono nas canções. Nos tempos em que a crítica de música pop era forte e vigorosa, a confusão entre persona artística e conteúdo artístico parecia indissociável. Talvez ainda resista hoje nos comentários cinematográficos que caracterizam uma grande atuação à perda de peso, ou a parceria entre um casal de atores. Talvez. Lennon-Ono, casal e artistas, eram uma coisa só, até os trágico evento de 8 de dezembro.

Às vezes só a morte é capaz de mostrar aos vivos o óbvio. Foi o que aconteceu com “Double Fantasy”, que arrebataria o Grammy no ano seguinte. Grande disco de despedida; amoroso e delicado, rude e vigoroso, como a vida dos – bons – que seguem por aqui.

A lista de grandes canções de “Double Fantasy” é grande: “Woman”, “(Just like)starting over”, “Beautiful boy”, mas a minha favorita segue sendo “I’m losing you”.