Arquivo da categoria: Poesia

Visitando Manhattan com Frank O’Hara

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Quando escrevi alguns dos poemas de “A arte de andar por aí sem portar um celular” desejava trazer para os versos um pouco da energia que brota do contato do poeta com as ruas da metrópole; um misto de desejo e risco, uma dança tão intensa quanto caótica. Tinha como modelo o trabalho de alguns poetas, entre eles Frank O’Hara, que acaba de ter sua primeira coletânea editada no Brasil. Falo um pouco dele e do lançamento de “Meu coração está no bolso”, no “Cultura & Estilo”, do Valor Econômico de hoje.

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O poeta do instante perfeito

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“O Globo”de hoje traz minha entrevista com Ron Padgett, poeta norte-americano ligado à chamada Segunda Geração da Escola de Nova York, ex-diretor do mítico The Poetry Project no East Village, autor dos versos de “Paterson”, novo filme de Jim Jarmusch que entra em cartaz hoje no país.

 

 

 

 


Réquiem para Leonard Cohen

Photo of Leonard Cohen

Vamos começar assim, Leonard Cohen era poeta. Um grande poeta. Vamos caminhar um pouco por aqui, por esse terreno pantanoso desse gênero, um enclave neste mundo pragmático movido pela boca gulosa do consumismo. Em algum lugar entre as décadas finais do século XVIII e as primeiras do século XIX a sociedade burguesa voltou sua sistemática, seus modos de produção para as narrativas. Folhetins e então a maravilha de encartar e encadear capítulos em volumes impressos. Eis o romance burguês, gênero perfeito deste novo tempo. Gênero feito para a máquina de imprimir e circular, não mais o artesanato, não mais o toque da mão. Agora o toque da máquina. A poesia aqui se desloca. Enceta aventuras, alimenta a alma dos eruditos, os amores românticos, o repertório dos narradores. A poesia não está mais no centro. O poeta, como profissão, não existe. Nunca existiu, se pensarmos como atividade produtiva. O poeta não produz. O produz não opera no terreno da utilidade prática. Vive, porque precisa viver, de outras habilidades. É tutor, às vezes tem a sorte de ser herdeiro. Se é um duro, sonha com um mecenas, uma bolsa de fundação nos dias mais recentes. Cohen começa assim. O governo canadense paga o jovem e promissor poeta para pensar por um tempo. Tempo é tudo de que o poeta precisa. Cohen se manda para Londres, depois para a Grécia. Cria, publica seus livros, que são lidos e aclamados. Mas Cohen quer ser artista. Não quer seu tempo num departamento de universidade. Não quer uma redação jornalística. Quer ser artista, mas a vida é mais rápida que a velocidade de bolsas e prêmios. A canção popular é sua saída. É possível trovar e ser pago no século XX. Muito bem pago. Não fosse o pânico de subir ao palco e tudo estaria resolvido. Não fosse a desconfiança do papel tantas vezes ridículo do artista popular do século XX tudo estaria resolvido. Mas não estava. É um dilema da alma. O artista quer ser amado, mas não quer ser deglutido como o bispo Sardinha. Quer ser consciente, estar consciente, mas como, se tudo é furor e velocidade? Anos, décadas para sofrer menos e encontrar um caminho. Achar a própria voz em meio a tanto ruído. Achar a voz. Uma voz pra dentro e pra fora. Uma voz de dentro. Lugar onde as pontas se tocam. O poeta e o trovador. Arco e flecha. Introspecção e fúria. Leonard Cohen, poeta morto no último dia 7.

No Clube do Livro desta semana tratei da carreira literária de Cohen.