Vinicius, todo Vinicius

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Tratei no Clube do Livro de hoje da obra de Vinicius de Moraes em dois projetos organizados pelo poeta e crítico Eucanaã Ferraz. A caixa com dois volumes que cobrem toda produção literária (poemas, prosa e teatro) e o cancioneiro de Vinicius, e Todo amor, coletânea que percorre crônicas, poemas, cartas e letras de canções do escritor em que o amor é tematizado.

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Lydia Davis e a arte de transformar o pequeno em maravilhoso

Davis

No último Clube do Livro, tratei do lançamento no Brasil de Nem vem, coletânea de narrativas breves da norte-americana Lydia Davis. Davis criou uma espécie de gênero híbrido entre o conto curto, o insight e a anotação. Recorta das origens mais diversas – o sonho, uma ficção de Flaubert, a observação cotidiana – pedaços de vida, recombinados por meio da linguagem. Relações familiares, afeto por animais, a psicologia de um personagem, as pequenas manias de cada um de nós. Em tempos acelerados como estes, o amplo mosaico de pequenas grandes histórias de Davis é um alívio e um contentamento.


Ishiguro, Nobel de Literatura

IshiguroKazuoAntes de chegar ao autor, é preciso entender o tempo em que ele foi gerado. Algo de muito importante aconteceu no início dos anos 1980 no Reino Unido. Uma intensa força criativa que reverberou profundamente nas artes e nos costumes. A música pop foi a cabeça dessa cobra cheia de eletricidade; a literatura seu corpo robusto. Kazuo Ishiguro é filho dessa época. Embora mais convencional na forma e no temperamento, irá surgir como um dos rostos da famosa edição da revista Granta, em 1983, que se propunha publicar os melhores autores ingleses com menos de quarenta anos. Martin Amis, Julian Barnes e Ian McEwan são alguns outros nomes. Dois anos antes, Salman Rushdie havia lançado Os filhos da meia-noite. Como se vê, o sangue dessa Inglaterra conservadora até o pescoço seco de Margareth Thatcher, era híbrido, misturando filhos de antigas colônias como Rushdie, imigrantes orientais como Ishiguro e gente como Amis, cujo pai era uma pedra robusta do antigo cânone literário inglês. É provável que o júri não tem pensado em nada disso quando elegeu um autor para contrapor a conturbada opção por Bob Dylan. Talvez tenha simplesmente pinçado um escritor estabelecido num dos maiores centros literários mundiais, capaz de ofertar um repertório de obras heterogêneas em sua temática e com imensa maestria das ferramentas de narrar. Quem sabe – se a fantasia ainda é permitida – hoje à noite confessem a seus confortáveis travesseiros suecos não conseguir esquecer a determinada contenção do mordomo Stevens, a quem pouquíssimos leitores são capazes de imaginar sem o rosto de Anthony Hopkins, ou as terríveis revelações que atingem os amigos Kathy, Ruth e Tommy, em sua dolorosa perda da inocência.

Espero que seja assim, e se for, a escolha de Ishiguro foi muito acertada.

Aqui meu comentário no Clube do Livro CBN.

Aqui, tratei de Não me abandone jamais, no Livro do Mês.


“O alienista”, de Machado e algo sobre o uso do dinheiro público no Brasil


Lady MacBeth reencarna numa Rússia sangrenta

Leskov

O tédio é a substância dos dias de Catierina Izmáilova, casada com um rico comerciante estéril e ausente. Entre a solidão e os sons da natureza que preenchem seus minutos, seus segundos, a novidade – o arroubo, o que a vida traz de inesperado – personifica-se em Serguiêi, um jovem e belo capataz da fazenda.

Uma história idílica se apresenta?

Não, nada disso.

O que essa relação intensa, na carne e na mente, irá engendrar é o horror.

É esse o território da impressionante novela Lady MacBeth do distrito de Mtzensk, de Nicolai Leskov, de que tratei no Clube do Livro desta semana.

Publicado há mais de 150 anos, numa revista editada por Dostoiévski, e disponível para nós brasileiros, na tradução do craque Paulo Bezerra, é obra incontornável para quem a literatura é mais do que um passatempo.


Tudo que São Paulo poderia ser

Lores

As cidades, assim como os homens, possuem janelas de tempo em que podem ser tudo o que poderiam ser. Momentos em que os homens certos estão no lugar certo na época certa. É impossível que não deixem marcas. Por maiores que sejam seus equívocos, as cidades mantêm em algum filigrana de seu corpo, o rastilho de beleza de uma época assim, gloriosa. Não estou pensando na Florença de Brunelleschi, nem na Paris de Haussmann. Estou pensando nessa que é a maior metrópole ao sul do Equador, onde hoje habitam nossos sonhos intranquilos. Falo da São Paulo que existiu, e que é possível pressentir quando o caminhante desacelera o passo e olha ao redor de partes do Centro ou de Higienópolis. São Paulo nas alturas, livro do jornalista Raul Juste Lores, funciona como um lembrete, um lembrete desses que podemos guardar em nossas cabeceiras, e todos os dias, antes de sonhar, folheá-lo. Recuperando os anos 1950 e os homens que desenharam projetos e ergueram edifícios, ainda hoje icônicos, Lores conta uma história deliciosa sobre uma época que devemos ter fresca na mente como aliada em nossa busca por uma cidade melhor.

Tratei de São Paulo nas alturas no Clube do Livro desta semana.


A biblioteca de Borges e um romance sobre Giacomo Casanova

Marai

No Clube do Livro das últimas semanas tratei do projeto Borges babilônico, volume que cobre por meio de entradas temáticas referências, personagens e leituras de Jorge Luis Borges (você ouve aqui).

Sándor Márai, talvez o maior nome do romance russo no século XX, chega também as nossas livrarias com Jogo de cena em Bolzano, deliciosa ficção sobre os dias seguintes à fuga de Casanova dos porões do Palazzo Ducale em Veneza (este comentário você ouve aqui).