Ishiguro, Nobel de Literatura

IshiguroKazuoAntes de chegar ao autor, é preciso entender o tempo em que ele foi gerado. Algo de muito importante aconteceu no início dos anos 1980 no Reino Unido. Uma intensa força criativa que reverberou profundamente nas artes e nos costumes. A música pop foi a cabeça dessa cobra cheia de eletricidade; a literatura seu corpo robusto. Kazuo Ishiguro é filho dessa época. Embora mais convencional na forma e no temperamento, irá surgir como um dos rostos da famosa edição da revista Granta, em 1983, que se propunha publicar os melhores autores ingleses com menos de quarenta anos. Martin Amis, Julian Barnes e Ian McEwan são alguns outros nomes. Dois anos antes, Salman Rushdie havia lançado Os filhos da meia-noite. Como se vê, o sangue dessa Inglaterra conservadora até o pescoço seco de Margareth Thatcher, era híbrido, misturando filhos de antigas colônias como Rushdie, imigrantes orientais como Ishiguro e gente como Amis, cujo pai era uma pedra robusta do antigo cânone literário inglês. É provável que o júri não tem pensado em nada disso quando elegeu um autor para contrapor a conturbada opção por Bob Dylan. Talvez tenha simplesmente pinçado um escritor estabelecido num dos maiores centros literários mundiais, capaz de ofertar um repertório de obras heterogêneas em sua temática e com imensa maestria das ferramentas de narrar. Quem sabe – se a fantasia ainda é permitida – hoje à noite confessem a seus confortáveis travesseiros suecos não conseguir esquecer a determinada contenção do mordomo Stevens, a quem pouquíssimos leitores são capazes de imaginar sem o rosto de Anthony Hopkins, ou as terríveis revelações que atingem os amigos Kathy, Ruth e Tommy, em sua dolorosa perda da inocência.

Espero que seja assim, e se for, a escolha de Ishiguro foi muito acertada.

Aqui meu comentário no Clube do Livro CBN.

Aqui, tratei de Não me abandone jamais, no Livro do Mês.


Lady MacBeth reencarna numa Rússia sangrenta

Leskov

O tédio é a substância dos dias de Catierina Izmáilova, casada com um rico comerciante estéril e ausente. Entre a solidão e os sons da natureza que preenchem seus minutos, seus segundos, a novidade – o arroubo, o que a vida traz de inesperado – personifica-se em Serguiêi, um jovem e belo capataz da fazenda.

Uma história idílica se apresenta?

Não, nada disso.

O que essa relação intensa, na carne e na mente, irá engendrar é o horror.

É esse o território da impressionante novela Lady MacBeth do distrito de Mtzensk, de Nicolai Leskov, de que tratei no Clube do Livro desta semana.

Publicado há mais de 150 anos, numa revista editada por Dostoiévski, e disponível para nós brasileiros, na tradução do craque Paulo Bezerra, é obra incontornável para quem a literatura é mais do que um passatempo.


Tudo que São Paulo poderia ser

Lores

As cidades, assim como os homens, possuem janelas de tempo em que podem ser tudo o que poderiam ser. Momentos em que os homens certos estão no lugar certo na época certa. É impossível que não deixem marcas. Por maiores que sejam seus equívocos, as cidades mantêm em algum filigrana de seu corpo, o rastilho de beleza de uma época assim, gloriosa. Não estou pensando na Florença de Brunelleschi, nem na Paris de Haussmann. Estou pensando nessa que é a maior metrópole ao sul do Equador, onde hoje habitam nossos sonhos intranquilos. Falo da São Paulo que existiu, e que é possível pressentir quando o caminhante desacelera o passo e olha ao redor de partes do Centro ou de Higienópolis. São Paulo nas alturas, livro do jornalista Raul Juste Lores, funciona como um lembrete, um lembrete desses que podemos guardar em nossas cabeceiras, e todos os dias, antes de sonhar, folheá-lo. Recuperando os anos 1950 e os homens que desenharam projetos e ergueram edifícios, ainda hoje icônicos, Lores conta uma história deliciosa sobre uma época que devemos ter fresca na mente como aliada em nossa busca por uma cidade melhor.

Tratei de São Paulo nas alturas no Clube do Livro desta semana.


A biblioteca de Borges e um romance sobre Giacomo Casanova

Marai

No Clube do Livro das últimas semanas tratei do projeto Borges babilônico, volume que cobre por meio de entradas temáticas referências, personagens e leituras de Jorge Luis Borges (você ouve aqui).

Sándor Márai, talvez o maior nome do romance russo no século XX, chega também as nossas livrarias com Jogo de cena em Bolzano, deliciosa ficção sobre os dias seguintes à fuga de Casanova dos porões do Palazzo Ducale em Veneza (este comentário você ouve aqui).


Depois do amor, o amor

No Clube do Livro de hoje tratei de O curso do amor, misto de romance e ensaio filosófico, em que o suíço Alain de Botton reflete sobre o amor na contemporaneidade.


Assim começa o mal, de Javier Marías

marias 2Nos primeiros anos após a morte do ditador Franco, a Espanha mergulha numa época de euforia e hedonismo, de liberação do corpo e dos costumes. Um novo tempo que convive com as marcas da longa noite de quatro décadas com sua maciça repressão e patrulhamento. Como conciliar esses dois tempos? Que história (e quem a conta) irá se fixar como verdade, como relato oficial? O que deve ser esquecido, o que sempre deve ser lembrado? E a partir dessas escolhas, qual seu efeito sobre as histórias coletivas e privadas. Essas questões permeiam o amplo arco narrativo do primoroso de Assim começa o mal, do espanhol Javier Marías, Livro do mês do Clube do Livro CBN. Longo relato (de som e fúria) de um ex-assistente de um conhecido diretor de cinema, que relembra aqueles anos 1980, e sua próxima e profunda relação com aquele tempo e seus persongens mais próximos.


Caminhar, parar, pensar

Careri

Francesco Careri andou por aí, na maior parte do tempo acompanhado. Andou pela cidade, pelas cidades, onde elas deixam de ser a ideia equivocada que dela guardamos. Fímbrias, limites, vielas sem nome ou número. O que ele viu e pensou está no seu Caminhar e pensar, que o arquiteto e ativista da prática de caminhar como conhecimento, lança por aqui.

Dos mal sucedidos projetos de moradia para imigrantes e ciganos na Europa aos fantasmas da repressão internalizados pela população de Santiago. Da Bogotá dos territórios divididos pela guerrilha, o Estado e o narcotráfico à São Paulo e sua miríade de projetos de urbanização exibidos na periferia da cidade, as portas de entrada são inúmeras neste livro híbrido, ora manifesto, ora crítica urbanística, muitas vezes crônica, outras tantas narrativa de viagem. Tratei dele no Clube do Livro de hoje.


Karl Ove narra as peripécias do jovem Karl Ove

Karl Ove

Sai agora no Brasil o quinto volume da série “Minha Luta”, do norueguês Karl Ove Knausgard. A descoberta da escrita recupera as peripécias do jovem Karl Ove em Bergen, quando ensaiava os primeiros passos na carreira de escritor. Tratei dele no Clube do Livro de hoje.


Santinhos no Texas

BerlinJá falei de Lucia Berlin aqui, e de sua seleta de contos Manual da faxineira. No Livro do Mês do Clube do Livro CBN analiso com um pouco mais de detalhamento uma de suas peças. Tratei de “Estrelas e santos”, construção típica do estilo de Berlin, exploradora das fronteiras nebulosas da autobiografia e da ficção. Uma narradora retoma uma passagem da infância. Um colégio católico no Texas, uma garota protestante, vinda de uma família disfuncional. Mal entendidos, inveja, bullying e religião se misturam no caldeirão. O tom de Berlin é autoirônico, espirituoso, como se não levasse tão a sério as seríssimas circunstâncias da vida. Para os ouvidos mais atentos, Berlin narra como a vizinha exótica que nos conta suas histórias numa tarde de verão regada a álcool e afeto.


Flip melhor de gênero

flip 2017

Aqui, meu comentário no Clube do Livro CBN sobre a 15a. edição da FLIP, que começa amanhã em Paraty. Falo do novo recorte curatorial e destaco alguns nomes, entre eles o homenageado Lima Barreto, a chilena Diamela Eltit e o jamaicano Marlon James.