A arte da rivalidade

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É feito de fricção o trabalho artístico. Comparações, mestres que apontam caminhos e então são desprezados; parceiros de geração que nascem como amigos e tornam-se inimigos. Admirações perenes, emoções violentas que habitam o ofício da arte; relações que, como o espelho de Dorian Gray, aprisionam por vaidades nunca sublimadas. Essa é matéria do excelente “A arte da rivalidade”, do crítico Sebastian Smee, de que tratei no Clube do Livro de hoje. A história de quatro relações afetivas entre alguns dos maiores gigantes da arte moderna.


Uma noiva jovem espera e deseja

Baricco

A Noiva Jovem é uma menina, e em seu entorno o Pai, a Mãe e a Irmã de seu noivo ausente irão educá-la. Uma educação antes corporal que sentimental. Em paralelo, Alessandro Baricco inventa um narrador que também observa o próprio corpo se esvair enquanto escreve essa história. Nesse mundo paralelo, criado pela imaginação prodigiosa deste grande autor italiano, o que parece absurdo é mais como o lado interno da vida; escrito pelo desejo e pelo não dito, por esperas e certezas inexplicáveis, tecidos pela trama da ficção.

Tratei de A noiva jovem no Clube do Livro de hoje. 


Os caminhos da liberdade no sul escravocrata

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A Ferrovia Subterrânea era uma metáfora, mas Colson Whitehead deu-lhe materialidade por meio de sua imaginação. Não se contentou com postos de refúgio em fazendas e propriedades no sul dos Estados Unidos, necessitou de trilhas e locomotivas para contar sua história. The underground railroad – os caminhos para a liberdade, Livro do Mês do Clube do Livro CBN, trama sua narrativa por meio dessa rede de fraternidade, que auxiliou escravos em fuga a escapar do sul escravagista. É nela que Cora, sua protagonista, irá experimentar em sua carne o horror de ser um negro na América. Perseguida por um caçador de recompensas, acoitada pelas memórias da mãe fugitiva, Cora irá experimentar o pior e o melhor que o gênero humano é capaz de produzir, em sua aventura repleta de idas e vindas em direção ao utópico Norte do continente.


Dante chega ao Paraíso e é repreendido por Beatriz

 


O Império do Branco

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Não fosse a obsessão humana e seguiríamos nas cavernas, acuados diante do esplendor do mundo. De um monte branco de argila se fez arte, da combinação de desejo e engenhosidade conta-se a história. A história aqui é a jornada da porcelana da China ao Ocidente. Mas o que Edmund De Waal, um dos mais instigantes autores de não-ficção da atualidade, conta em seu “O caminho da porcelana” é uma jornada de obsessões. A dele, ceramista premiado, em busca das origens do próprio ofício. E, acima de tudo, a busca científica, a combinação de genialidades, de campos do conhecimento que se misturaram para inventar no Ocidente o que os chineses exercitavam há mil anos. Leibniz, Goethe, Espinoza e Newton conversam como se dividissem a mesma mesa. De Waal lhes dá vida e voz enquanto tenta explicar a si e ao leitor o caminho do conhecimento.

Tratei mais de “O caminho da porcelana”no Clube do Livro desta semana.


Uma gozação e tanto

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Há autores forjados no ofício de descrever amplas paisagens, revelar complexas tensões sociais, esmiuçar as engrenagens da história posta em movimento. Outros se aventuram na difícil, e muitas vezes desprezada, tarefa de contar pequenas histórias. Passagens domésticas, a vida que habita a mente de personagens que parecem desinteressantes quando expostos a este mundo em que tantos desejam encenar vidas de aparência espetaculosa. Não há nenhuma garantia na arte da ficção que um Napoleão dê vida a páginas mais impactantes que um sapateiro. Toda vida importa, toda vida pode ser extraordinariamente interessante. É esse o registro do italiano Italo Svevo. Histórias pequenas, a tratar de um reduzido grupo de personagens, aparentemente tolos e banais. Seu “Uma gozação bem-sucedida”, tema do Clube do Livro desta semana, opera nesse registro. No dia do armistício de 1918, na agora italiana Trieste, um caixeiro-viajante, Enrico, prega uma peça em seu amigo Mário, um literato tão sonhador quanto presunçoso. A partir daí, o que decorre, além de uma série de confusões e humilhações, é a constatação dura (e todos nós em maior ou menor grau a carregamos) de que as fantasias confessadas aos nossos travesseiros muitas vezes não deveriam nunca serem vividas em voz alta.


O Papa e Il Duce

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Em 1922, um ex-bibliotecário e um ex-socialista chegam ao poder na Itália. O primeiro, agora nomeado Pio XI, passa a comandar a Igreja Católica Romana; o segundo, transformado em Il Duce, como Primeiro-Ministro. Nos anos seguintes, a trajetória desses dois homens, separados pelas pontes que cruzam o Tibre, irão se aproximar, unindo-se num projeto de poder que avançará e dará nova configuração à jovem nação unificada italiana. Os fascinantes bastidores da relação entre a Igreja Católica e o Partido Fascista no período entre guerras são explorados em detalhe pelo historiador David I. Kertzer, em seu O Papa e Mussolini – a conexão secreta entre Pio XI  e a ascensão do fascismo na Europa, tema do Clube do Livro de hoje.

 


Beatriz: a maior das fantasias de Dante Alighieri

 


“A fantástica vida breve de Oscar Wao”diverte e assombra

Junot Díaz

Duas rotas correm em paralelo na terna e hilária narrativa “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, de Junot Díaz. É impossível não se divertir com as peripécias de Oscar, um geek, de origem dominicana, que vive num subúrbio de Nova Jersey (para ser exato em Paterson, cidade-ícone na literatura americana de que falei aqui). Seu amor pela chamada baixa cultura (será que ainda devemos validar esse tipo de etiqueta?), sua obsessão por Tolkien e acima de tudo em encontrar um amor, comovem e divertem. Já teríamos aí um livro, mas há um segundo, mais denso, profundo e cruel, protagonizado pelas mulheres de Oscar: sua mãe e sua irmã. Principalmente a mãe, Beli, e a trajetória que a leva de Santo Domingo para os Estados Unidos.

Esta América, que dá corpo e voz aos Estados Unidos contemporâneos, e que o demente Trump imagina que possa represar com um muro físico, reencena a história que não se repete como farsa nos países abaixo da Flórida, mas como tragédia. Uma tragédia, em muitos momentos engendrada ou financiada por interesses norte-americanos, e protagonizada por ditadores – no caso dominicano, Trujillo – sanguinários. Unir essas rotas num único volume, faz do primeiro romance de Díaz, que ganhou o Pulitzer de ficção em 2008, um risco e um assombro.

Tratei de “A fantástica vida breve de Oscar Wao”, no Clube do Livro CBN de hoje.


Visitando Manhattan com Frank O’Hara

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Quando escrevi alguns dos poemas de “A arte de andar por aí sem portar um celular” desejava trazer para os versos um pouco da energia que brota do contato do poeta com as ruas da metrópole; um misto de desejo e risco, uma dança tão intensa quanto caótica. Tinha como modelo o trabalho de alguns poetas, entre eles Frank O’Hara, que acaba de ter sua primeira coletânea editada no Brasil. Falo um pouco dele e do lançamento de “Meu coração está no bolso”, no “Cultura & Estilo”, do Valor Econômico de hoje.