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Contemporâneos, extremamente diferentes

No Clube do Livro das últimas semanas tratei do francês Max Jacob, cujo inédito “O gabinete negro”está saindo no país e de Franz Kafka em nova tradução de alguns de seus principais contos. 

Nascidos com menos de uma década de diferença, suas trajetórias não poderiam ser mais diversas, reforçando a pluralidade do imenso fluxo criativo que tomou a Europa entre o final do século XIX e começo do XX. Jacob, sobretudo poeta, é figura central  da geração das vanguardas que ocuparam Montmatre e Montparnasse, em Paris. Amigo e retratado por Picasso e Modigliani, estabelece-se como um ator social importante daquele período. Kafka, recluso e de circulação muito mais restrita em seus anos de vida, fez da investigação de suas próprias vivências (familiares, religiosas, sociais) material de sua obra magnífica.

Resta aqui um ponto de contato que os aproxima em chave dramática. Jacob, de origem judaica, converte-se ao cristianismo, dedica-se à vida monástica, mas não escapa da Gestapo. Kafka, que não chegou a testemunhar a ascensão de Hitler, lega ao amigo Max Brod a incumbência de destruí-la. Como sabemos, Brod o desobedece, escapando para a Palestina e possibilitando a nós, leitores deste século, possamos ter acesso a seus escritos.  Exemplos práticos do copo de dados da existência tão bem registrado por Jacob em uma de suas obras mais importantes.

 

 

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A coluna – Telas roubadas

Um acordo da Ancine (Agência Nacional de Cinema) com algumas das principais empresas exibidoras do Brasil, firmado no final de 2014, definiu que um único título não deveria ocupar mais de 35% das salas de cada complexo. Na prática observa-se que a regra não vem sendo cumprida. Neste modelo hegemônico, ditado pelas franquias americanas, a questão a ser feita por cada país em relação a seu mercado exibidor é: operaremos simplesmente pela lei da demanda, ou filmes, como livros e canções, são produtos que precisam de legislação própria?

Talvez esteja aí uma das batalhas que expõem o conflito cada vez mais desequilibrado entre arte e entretenimento. Um conflito que se torna complexo pela semelhança dos suportes utilizados e a distância de seus objetivos. E.L. James se compra no mesmo canal de distribuição que vende Kafka. E não precisamos sequer ser leitores de qualquer um deles para saber que escreveram suas obras com motivos muito distintos, assim como são distintos os motivos que levam o leitor a Kafka ou James. O mesmo se dá quando um brasileiro sai atrás de um filme iraniano ou quando vai ao shopping assistir Homem de ferro 3. Não é uma questão de julgamento, mas de diferenças. Não se pode tratar esses leitores ou o público das salas de cinema como um rebanho único. É preciso, como afirma o princípio da isonomia, tratar igualmente os iguais e desigualmente os desiguais.

Em casa

Por absoluta falta de tela, os vencedores de Cannes e Veneza em 2014 vem sendo tratados pelo circuito carioca no sistema de degredo. Por sorte o turco Winter Sleep já está disponível para locação, seja onde for que se loque filmes hoje em dia (o Now foi minha opção). É um filmaço, para quem tem Tchekhov em alta conta (trata-se de uma adaptação de um de seus contos), e gosta de dramas familiares em que ninguém é mocinho ou bandido. De quebra, fica-se completamente atordoado pelas paisagens da Capadócia, enquanto uma espécie de fúria brota no íntimo quando se pensa como seria observá-las na telona.


Clube do Livro – Noventa anos sem Kafka e um romance sobre a perda da memória e a força da linguagem

Hoje, no Clube do Livro, os noventa anos da morte de Kafka e o lançamento de “Nova Gramática Finlandesa”, belo romance do italiano Diego Marani.